EDITORIAL

Causas esquentadas

É neste período do ano que vereadores remexem o baú de causas esquecidas para ganhar projeção junto a determinados nichos do eleitorado. Nas últimas sessões da Câmara, esse papel voltou a se cumprir. Pautas adormecidas são servidas como prato principal dos encontros.

Desafortunadamente, bem sabemos, arroubos e xingamentos de parlamentar contra a negligência e o abandono de serviços públicos costumam durar pouco, alimentam alguma reação, porém, na sessão seguinte, outro assunto é re-esquentado, e assim seguimos.

A descontinuidade da defesa dos assuntos de interesse da população é um grande mal. Soma-se a isso, outro traço do comportamento de grande parte dos políticos brasileiros. Vigora a lei do “sopra e afaga” na relação entre os poderes Legislativo e Executivo.

A “rebelião” da vez foi contra o desmonte da Polícia Civil, um problema gravíssimo, complexo e antigo.

Colocar o dedo nesta ferida é algo positivo para a cidade, sem dúvida. Pela primeira vez, afirma o sindicato dos servidores da Polícia Civil, a região do Alto Tietê tem o número suficiente de delegados para atuar em todas as cidades ancoradas na Delegacia Seccional.

Temos delegados, mas faltam escrivães, investigadores e outros técnicas para a montagem de equipes que deem conta, por exemplo, de manter o Distrito Policial de Braz Cubas aberto 24 horas, como acontece na delegacia central.

Alguma novidade nisso? Nenhuma. As estruturas as polícias Civil e Militar estão paradas no tempo, sucateadas, distantes da população que pode até fazer um registro de um crime online, mas carece de mais. As pessoas querem falar com uma autoridade, dar detalhes que o boletim virtual não trará, receber orientações.

As cidades crescem, os índices de violência, idem, e a gente faz de conta que está tudo bem. Não está. Na semana mesmo que passou, pesquisa apresentada por este jornal revelou um fato assustador. Mogi das Cruzes registra um aumento substancial dos crimes hediondos, uma marca inquestionável da derrota das políticas de segurança pública, mas também das ligadas à educação, da proteção às vítimas – a maioria, negras, mulheres e crianças -, assistência social, saúde, trabalho, etc.

O ruído na Câmara pode não surtir nenhum efeito prático. A força política dos representantes de Mogi das Cruzes tem deixado a desejar. De tempos em tempos, esse mesmo assunto foi tratado na casa legislativa. E daí?

Apesar disso, não deixa de ser um registro. Especialmente neste ano: contaminada pela pandemia, a campanha eleitoral pode ser ainda mais fraca e privilegiar os vereadores por profissão, aqueles que acumulam, três, quatro mandatos. Ao menos, como dissemos, essas lembranças fazem algum ruído.


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