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EXEMPLOS DE SUPERAÇÃO

Professora cria perfil para falar sobre gordofobia e engajar mulheres contra preconceito social

Daiana Alves da Cruz influencia mulheres a vencer o preconceito e, após o câncer de mama, abraçou outra bandeira: a prevenção à doença

Eliane José
31/12/2022 às 08:09.
Atualizado em 03/01/2023 às 13:05

A professora de português Daiana Alves da Cruz criou o perfil Gorda Sim, Feia Não para dar dicas e influenciar mulheres a vencer o preconceito (Crédito: Marcos vinicius/ @marcossilva.ph)

Na pandemia, algum tempo antes de descobrir um câncer de mama, a professora de português Daiana Alves da Cruz criou o perfil @gordasimfeianão para falar sobre a gordofobia e engajar mulheres contra o preconceito social sentido por ela, na própria pele, logo após o nascimento da primeira filha, Ana Luiza, hoje com 22 anos.

Foram muitos anos ouvindo aquilo que derruba a autoestima das pessoas acima do peso, por opção ou não. “Eu me escondia, não queria sair de casa, não queria me arrumar e não me sentia bem nem mesmo para me vestir”, recorda-se Daiana que no início da pandemia, quando criou o canal Gorda Sim, Feia Não, ainda não tinha descoberto a doença que estancaria, pelo menos durante algum tempo, a atuação como influencer capaz de reunir 30 mil seguidores.

Durante essa jornada, que ainda afeta a autoestima da professora e confeiteira (Crédito: Marcos vinicius/ @marcossilva.ph)

Por causa dos efeitos da doença, ela reduziu as postagens e se reinventou após a realização dos primeiros cursos de confeitaria, criando nova perspectiva profissional e incluindo em sua trajetória pessoal uma fresta para superar o doloroso tratamento marcado pela quimioterapia, radioterapia e a retirada completa de uma das mamas.

“Eu paralisei, um pouco, as postagens contra a gordofobia porque não estava em condições emocionais de seguir com o canal”, admite, afirmando que essa interrupção abriu ponte para uma atividade que ajudou no processo de cura: “Fazer os bolos, adoçar a vida das outras pessoas foi uma forma de me manter viva”, resume.

Os bolos e delícias doces deram origem a uma nova carreira profissional, também impulsionada pelas redes sociais, com o @daianabolosesobremesas.

Aos 42 anos, começando a ver novos fios de cabelo surgirem na cabeça que foi raspada, Daiana pretende retomar com duas de suas metas de vida – o magistério e a luta contra a gordofobia, além de alinhar essas vertentes ao ramo da confeiteira e à família, formada por Ana Luiza, e a pequena Maria Laura, de 7 anos, além do marido Fernando.

Aos 42 anos, Daiana começa a ver novos fios de cabelo surgirem na cabeça que foi raspada (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi o marido, aliás, o responsável por Daiana deixar a cidade de Sete Alagoas, a 72 quilômetros da capital mineira, e vir morar em Mogi das Cruzes, em 2010, onde passou a lecionar no Colégio Mello Dante.

Na sala de aula, o tema que daria projeção ao Gorda Sim, Feia Não, sempre surgiu e foi tratado como uma forma de orientar e ensinar alunos que sofriam ou que praticavam a gordofobia.

Da pedagogia e da experiência de vida, surgiram as dicas salpicadas por fotografias que estimulam as mulheres a serem quem elas são. “O corpo das pessoas, assim como a raça ou suas preferências, não dizem respeito ao outro. As pessoas não devem justificar ao outro o fato de serem gordas ou magras, baixas, altas, brancas ou negras. Ninguém deve dar palpite sobre o corpo alheio”, explora.

Para ela, ainda, mudanças começam a ser registradas a partir das respostas quando um indivíduo é alvo da gordofobia ou algum outro preconceito social. “As pessoas já respondem: eu engordei e o que você sente, ao apontar isso, é uma transferência por alguma situação que te atinge” ou “você está me ofendendo. Por que você está agindo assim? Esse não é um problema seu”.

(Crédito: Marcos vinicius/ @marcossilva.ph)

Daiana impõe limite, ainda, ao destacar que a sua atuação não incentiva as pessoas a engordarem: “O que eu digo é que as pessoas podem ser o que elas quiserem. Se a pessoa não está bem com o seu peso, defendo que ela deva fazer o que for preciso para mudar isso”.

Nos posts, a mineira prega, entre outras coisas, a liberdade de escolha sobre o que vestir e o uso da autoestima para blindar os comentários e atitudes gordofóbicas.

Nas redes sociais, a influencer teve de lidar com o ódio de muitos internautas que buscavam ridicularizar ou calar a voz dela. 

“Tive de enfrentar os haters, mas aprendi que cada um tem o seu tem e, a minha filha, que fez a faculdade de Psicologia, me auxilia muito e explicou que eu deveria bloquear esses comentários e seguir com o meu propósito”.

 Educação para mudar o mundo e criar profissionais mais humanos

Enquanto no canal Gorda Sim, Feia Não as atividades foram reduzidas em função do tratamento de saúde, Daiana Alves da Cruz investiu na carreira de confeiteira, considerada por ela como uma tábua segura de salvação, assim como a rede de apoio formada por familiares e amigos. “Inúmeras pessoas me fizeram continuar firme, muitas fizeram correntes de oração e me acolheram; eu não me senti sozinha”, agradece.

Agora, com a saúde caminhando para a normalidade, ela retoma o trabalho na sala de aula e planeja o futuro.

Daiana acredita que a educação é o caminho para a construção de uma sociedade melhor e justa. “Eu amo o que faço e acredito, sinceramente, que a sala de aula é uma missão de vida porque embora o ensino do português e da matemática sejam essenciais, o professor tem a responsabilidade social de tornar os adolescentes novos adultos, mais preparados para a vida, e não apenas para passar no vestibular. A escola quer que o aluno passe no exame para a universidade, mas seja, no futuro, um profissional que vai exercer uma profissão com humanidade”.

 Construindo pontes com o grupo “as poderosas”

Daiana Alves da Cruz descobriu o câncer de mama por meio do autoexame e iniciou o tratamento no ano passado, passando por instituições como o Instituto Oncológico, o Hospital Santana e o Centro Oncológico de Mogi das Cruzes.

Durante essa jornada, que ainda afeta a autoestima da professora e confeiteira, ela admite que sentiu “vontade de morrer todos os dias”, entre as fases que alternaram o desconforto após as sessões de quimioterapia, a perda do cabelo e, posteriormente, a cirurgia para a retirada da mama. 

Foi um ensinamento de uma de suas avós, dona Lourdes, retirado de um ditado antigo e popular - “cabeça vazia é oficina para o demônio” - que levou a professora a encontrar, entre as receitas, formas de bolo e ingredientes usados para produzir belíssimos bolos, uma forma de não desanimar.

Nascia, ali, uma nova atividade para quem, segundo ela, não tinha lá muitos dotes culinários.

Ao mesmo tempo em que enveredava pelos caminhos do preparo de doces, ela descobriu na rotina do tratamento do câncer, mulheres que também vivem a mesma barra. Fez amizades e também levou para as redes sociais dicas para a prevenção da doença que, para ela, começa a fazer parte do passado.

Foi em um grupo de WhatsApp, formado por pessoas em tratamento, que ela passou a saber mais sobre a doença, o tratamento e um universo que pode ser melhor vivido quando se tem o acesso à informação. O grupo “As Poderosas” assegurou um ambiente de conversa e aconselhamento e troca de experiências.

Daiana conta que, durante o período da doença, o grupo e pessoas como uma sobrinha, que a alertou sobre um dinheiro que poderia ser sacado de um seguro de vida que ela possuía, foram importantes para enfrentar a doença que mexeu com a mente e o corpo dela. Daiana chegou a pesar 115 quilos, após a bateria de medicamentos que retêm líquidos e influenciam no peso.

Sobre a volta dos posts no @gordasimfeianão, Daiana avisa às seguidoras, muitas delas, inclusive, se tornaram “amigas para sempre”: “Quando eu estiver bem, os posts voltarão”. 

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