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INSPIRE-SE

ONG Makaúba atende 100 famílias e impacta mil pessoas no Jardim Santos Dumont

A assistente social Euniciana Pelosa da Silva fala sobre a atuação de organizações no combate à desigualdade social

Eliane José
06/08/2022 às 09:20.
Atualizado em 06/08/2022 às 09:23

ALÉM DA COLCHA União de mulheres rende aprendizado sobre assuntos como direitos humanos e possibilidades de buscar nova renda com o fruto do trabalho das participantes (Divulgação)

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ONG Makaúba atende 100 famílias e impacta mil pessoas no Jardim Santos Dumont

A assistente social Euniciana Pelosa da Silva fala sobre a atuação de organizações no combate à desigualdade social

Eliane José
06/08/2022 às 09:20.
Atualizado em 06/08/2022 às 09:23

ALÉM DA COLCHA União de mulheres rende aprendizado sobre assuntos como direitos humanos e possibilidades de buscar nova renda com o fruto do trabalho das participantes (Divulgação)

Desde 2016, salas, garagens e quintais emprestados se tranformam em oficina de crochê e costura, sala de aula e arena para o debate de ideias e informações sobre temas como a saúde da mulher e a violência doméstica no Jardim Santos Dumont, em Braz Cubas. Cerca de 100 famílias - coisa de mil pessoas entre crianças, adolescentes, adultos e idosos se tornam parceiros de um projeto autosustentável proposto pela ONG Makaúba, na voz da paraense Euniciana Peloso da Silva, assistente social e terapeuta de família que durante 30 anos atuou em presídios e órgãos estaduais como diretora de Promoção Social durante o governo de Franco Montoro, em São Paulo.

Nascida em Bel Prazer, nas proximidades de Santarém do Pará, Euniciana e o marido, Waldemar de Sá Azevedo,  vieram morar em São Paulo, em 1984. Ela já tinha forte atuação em projetos comunitários - o que a levou para a área de Assistência Social. Agora, aos 67 anos, Euniciana não deixou as raízes após a aposentadoria.

O FUTURO ONG Makaúba realiza atividades fora do horário de aula com crianças e jovens da cidade (Divulgação)

Há seis anos, por meio de uma amiga, foi convidada a conhecer a comunidade do Jardim Santos Dumont, onde muitas pessoas ficaram sem renda na pandemia ou vivem do trabalho de reciclagem. Desde então, sob a tutela da ONG Makaúba, ela acompanha a comunidade em reuniões e atividades que buscam, entre outras coisas, a troca de saberes e o fortalecimento da rede de apoio às mulheres que, em sua maioria, são o arrimo da família.

Entre os projetos realizados  pelo grupo estão palestras sobre a saúde da mulher e oficinas, como a de costura, além de aulas de alfabetização para adultos e de reforço escolar para crianças e jovens.

Euniciana afirma que é alto o número de integrantes das comunidades mais pobres sem saber ler ou escrever; ou com muitas deficiências para as operações como as de matemática.

Esse trabalho feito por ONGs como a Makaúba e fora dos holofotes da mídia, é, na visão da assistente social, o único braço estendido às pessoas  mais carentes.

Euniciana participou, como militante política e profissional, das lutas que resultaram em conquistas como a Política Nacional de Assistência Social e o Marco Legal do setor, e afirma que desde 2016, o corte de 43% do orçamento federal destinado ao setor tornou ainda mais relevante a presença dos organismos que socorrem essas comunidades porque o “guarda-chuva cheio de buracos do estado” não consegue cuidar de todos os mais pobres e vulneráveis.

UNIÃO Grupo de mulheres se reúnem em casas de conhecidos, conta Euniciana Peloso da Silva (Divulgação)

Nesse trabalho - literalmente, de formiguinha, em busca de alguma equidade social, Euniciana afirma que, entre os muitos desafios, para além da falta de recursos financeiros oficiais, a situação é conceitual. “O que ninguém ainda consegue fazer é internalizar no cidadão a concepção de direito dos trabalhadores e até dos gestores (a quem cabe garantir o cumprimento da Constituição). As pessoas não conseguem reconhecer os direitos humanos, mesmo”, revela.

Apesar do quadro atual - quando o Brasil regrediu em índices vitais como o da fome, a terapeuta de família vê vitórias desde a Constitutinte, que tornou um direito a segurança social de todos os brasileiros, nas áreas da saúde, previdência e assistência social.

Sem uma sede própria, a ONG Makaúba realiza as reuniões ordinárias em uma sala emprestada. Mas isso não limita os braços, tampouco os sonhos. Exemplo disso é encontrado no Jardim Santos Dumont, onde, para reunir os grupos, Euniciana conta com a proteção de moradores que cedem espaços como quintais e garagens - aliás, esses endereços familiares, por serem ao ar livre, foram elementares desde 2020 quando, mesmo com a pandemia, o trabalho foi mantido, com a adoção dos demais cuidados sanitários.

 Visibilidade ao trabalhador

(Divulgação)

Artesão, tocador de banjo, negro, Milton Peloso da Silva morreu aos 63 anos, teve 16 filhos, 14 deles com Eunice, mãe de Euniciana. Trabalhador que deixou a alma de artista ao atuar no Projeto Ford, de extração de latex, Milton é o Caboclo Félix, mote do livro escrito por Euniciana com o subtítulo “Negras mãos entre o seringal e a arte”.

Na obra, a escritora independente usa a trajetória do pai para contar uma história conhecida de milhares de pessoas que trocam um talento pessoal pela necessidade de sobreviver e criar a família.

O livro conta as lembranças do pai que construía os brinquedos para os filhos com a madeira, tocava banjo e edificou casas e outros projetos com o tino natural que possuía para esses afazeres - mas trocou “o mundo que conhecia, da pesca, do manejo com a madeira, por um trabalho disciplinado, no conhecimento do projeto Ford, focado na extração do látex”.

INDEPENDENTE O livro de Euniciana Peloso da Silva pode ser encontrado nas redes sociais da autora (Reprodução)

A ideia de transpor a história familiar para o papel conjuga o mesmo espírito de partilha que a assistente social realiza na ONG Makaúba: “minha ideia é dar a visibilidade ao trabalhador pobre”.

Milton e Eunice são a razão de ser do Centro Cultural Sapucaia, nome de uma castanha extremamente resistente da região amazônica, um outro projeto tocado pela paraense que reside em Mogi das Cruzes há mais de 35 anos, ao lado dos irmãos e parentes.

No centenário de nascimento de Milton, os filhos se reuniram na casa onde os pais residiram e decidiram, fazer dali, um memorial - que não nasceu com o objetivo de ser um grande empreendimento como o que se conhece, quando se fala em um centro de memórias. “Ali, será para preservar a história dos dois”. Esse mesmo norte, o do trabalho sem muito alarde e divulgação, aliás, marca a construção da ONG Makaúba - nascida para fazer diferença social pura e simplesmente.

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