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VIDA MISSIONÁRIA

O que eu quero é amar, diz Peter Vitek em vídeo inspirador

A vida do missionário Peter Vitek (1976-2022) é contada em vídeo inspirador em homenagem ao membro da Associação São Lourenço, de Mogi

Eliane José
21/05/2022 às 08:03.
Atualizado em 23/05/2022 às 20:38

Em primeira pessoa, unindo uma coleção de imagens, depoimentos em primeira pessoa e canções, um vídeo de 24 minutos disponível nas redes sociais ajuda a conhecer um pouco mais sobre a vida do missionário Peter Vitek, um eslovaco que viveu parte dos últimos tempos em Mogi das Cruzes e faleceu no acidente na Estrada das Varinhas, no fim da tarde do domingo dedicado a São José Operário (1º de maio).

Assista ao vídeo em homenagem ao Peter: https://youtu.be/6s0sBTx_WUE (Reprodução - YouTube)

Dividido em partes que marcaram a jornada missionária do europeu que deixou sua identidade em obras e esculturas que emolduram capelas e jardins da Associação São Lourenço,  no distrito de Taiaçupeba, um dos endereços brasileiros da Comunidade Cenáculo, entidade de origem italiana que acolhe crianças, jovens e dependentes químicos, em espaços distintos.

O filme começa com as letras de Peter Vitek em uma carta endereçada à mama Vlasta, num depoimento que ordena o caminho para a composição do perfil do artista que iria completar 46 anos em 18 de outubro próximo e abraçou a vida consagrada com os votos de seguir os “conselhos obediência, castidade e servidão aos mais pobres por toda a vida”.


Na carta, lê-se: “Não há amor maior do que dar a vida pelos amigos”; e o desejo dele: “O que eu quero de minha vida é amar”.

A partir daí, a película com  costura relatos feitos em por ele mesmo, em outras oportunidades. Peter Vitek descobriu-se artista plástico, diretor das atividades e peças teatrais apresentadas em ocasiões festivas na Associação São Lourenço. Fazia sonoplastia e gravações. 

De fala pausada, em italiano, ele conta da origem familiar na Eslováquia, um país comunista, onde os pais Vlasta e Morolav deram uma vida de carinho, atenção, estudos. Mas os pais, afirma, em meio à modernidade, “haviam abandonado a fé”. O pequeno Peter não foi batizado. Fez tudo isso após conhecer a Comunitá Cenacolo, dirigida pela madre Elvira, uma das primeiras retratadas por ele em pintura.

Ele não cita o motivo que o levou, um dia, a clamar por ajuda, quando “alguém me respondeu”. O encontro com os integrantes da comunidade presente em 30 países é descrito de maneira emocionante: “Olha (pensava ele), talvez há alguém que te queira bem, e na comunidade, me amaram, me deram a amizade, e eu perguntei o que querem de mim, o que eu também posso fazer, eu também quero encontrá-lo”.

Peter Vitek foi batizado no dia 13 de maio de 2000, quando estava com 24 anos, no Dia de Nossa Senhora de Fátima. Mais tarde estudou Teologia e Filosofia. Adotou a vida consagrada como leigo.

Em Mogi das Cruzes, a presença de Peter Vitek está em altares e paredes belíssimas, esculturas de santos e de pessoas que foram acolhidas pela comunidade, além de outras obras, que tiveram a participação deles, como as peças teatrais que sempre atraíram a comunidade formada pelos missionários, crianças, jovens e adultos das duas casas, além de amigos voluntários que sempre foram bem-vinda na casa construída do zero para o recebimento do primeiro grupo de crianças e adolescentes, em 1997, com a fundação da Missão Nossa Senhora da Ternura.

Imagens de partes das produções dessas obras, bem como da rotina da vida missionária em atividades com jovens e em atos do dia a dia, como dar a comida aos bebês, ali assistidos, são intercalados por músicas cristãs no vídeo.

Uma das últimas cenas retrata uma paixão recente – Peter ganhou uma bicicleta e começou a fazer alguns passeios, com um outro missionário, até o início de maio, quando um caminhão atropelou a dupla e ele morreu na própria Estrada das Varinhas.

Na imagem, ele sorri. O tom da homenagem é de reconhecimento pelo trabalho e vida dedicada ao próximo.

Ao final, em italiano e em português, a equipe afirma “Peter, te queremos bem! Intercedei desde o céu por nós!”.

 Sem medo de aprender, ele trabalhou com enxada e pincel

Inúmeras capelas e igrejas possuem obras feitas pelo missionário Peter Vitek, segundo afirma o padre Eugênio Lizier, da Associação São Lourenço. Somente nos últimos anos,  ele passou a assinar as pinturas inspiradas em temas religiosos. “Não sabemos quantas, desde que ele começou nos anos 2000, ele fez muitas e a maioria como presente a amigos, somente nos últimos anos, ele passou a assinar”, diz. Uma das mais importantes está na Capela Nossa Senhora de Fátima. “Em todas, tinha essa vontade de fazer as pessoas a se aproximarem a Deus”, acrescenta.

A quem busca caminho semelhante aos dos missionários, que dedicam tempo e trabalho a terceiros, padre Eugênio recomenda: “Sobretudo sair de si mesmo, sair do próprio egoísmo, da zona de conforto. Ele (Peter) entrou como, muito, quase morto, na comunidade, e ele descobriu essa nova vida e se doou, renunciou a muitas coisas para o bem. Ele buscou alguém sempre maior, sempre foi uma pessoa que não pensou em si, o amor para os últimos (os mais necessitados) ajudou bastante a ele. Ser (missionário) é não pensar em viver a vida só para si”.

Despedida em Mogi

Peter Vitek foi sepultado onde nasceu, na Eslováquia. Antes, um funeral foi feito em Mogi das Cruzes, na presença de amigos (leia abaixo a íntegra da despedida do padre Eugênio).

No texto, o religioso lembra que o amigo era “um homem que gosta das coisas bem-feitas, da ordem, da limpeza, cuidadoso com a própria pessoa e as coisas, amante da natureza, da vida saudável. Foi uma pessoa eclética, nunca teve medo de aprender a fazer algo novo, sabia trabalhar com a enxada ou carregar carrinhos, como não teve medo de aprender algo novo, no mundo artístico”. Muitos escritos dele transmitiam essa mesma mensagem. 

Leia, a seguir, na íntegra, a despedida feita pelo padre Eugênio Lizier, da Comunidade Cenáculo, nas despedidas feitas a Peter Vitek, em missa de corpo presente, em Mogi das Cruzes, antes do traslado para a Eslováquia, onde o missionário foi enterrado:

"Peter nasceu na Eslováquia no dia 18 de outubro de 1976. Cresceu em uma família simples, formada por a sua mãe Vlasta, o pai Miroslav e o irmão menor Miro. Desde jovem ele buscava uma vida autêntica que não conseguia encontrar naquilo que o mundo lhe oferecia. Foi assim que em outubro de 1998 encontrou a Comunidade em Medjugorje, na Bósnia Herzegovina, um lugar de especial devoção à Virgem Maria onde Nossa Senhora é venerada como a Rainha da Paz.

Quando Peter chegou era mais morto que vivo e assim ingressou na Comunidade com apenas 22 anos de idade. O encontro com os jovens que o acolheram na Comunidade, foi para ele o sinal do encontro com Cristo vivo. Aqui ele se sentiu amado, salvo e, em seguida, também chamado e enviado. A partir daquele momento, para o Peter começou algo novo; uma nova esperança; um encontro profundo com Deus que fez com que ele se aproximasse do sacramentos do Batismo, Primeira Comunhão e Crisma, que recebeu no dia 13 de maio de 2000.

Em seguida, no ano de 2001, ele começou a sentir no coração o desejo de doar a sua vida a Deus em nossa Comunidade e, foi assim que deu inicio ao caminho da vida consagrada. Em 2003 ele ingressou na faculdade de teologia e filosofia na Itália e, em 2004 fez os primeiros votos temporários como irmão leigo consagrado. Durante esse tempo na Comunidade, irmão Peter descobriu um talento artístico extraordinário dentro de si; quando no ano 2000 ele fez um retrato da Madre Elvira; para o aniversário dela, que de tão lindo parecia real.

Desde então foi crescendo como artista e expressando cada vez mais seu talento. A sua primeira experiência missionária foi quando, em 2005, Peter passou 3 meses aqui na comunidade de Mogi das Cruzes. Depois de terminar os estudos de filosofia na Itália em 2006 voltou ao Brasil, onde permaneceu por 3 anos. Nesse tempo na missão, o seu amor por esta terra e este povo cresceu, assim como a capacidade de educar os jovens de todas as idades com paixão, sobretudo os pequenos. Desde 2009 até 2012, Peter voltou a Itália para terminar seus estudos teológicos.

Após terminar os estudos, ele sentiu o desejo de permanecer um simples irmão consagrado, já que ele sempre pensou que a vocação sacerdotal fosse “grande” demais para ele. Na Pentecostes de 2012 fez os votos definitivos como irmão consagrado leigo de nossa Comunidade. Já que ele conhecia o português, Peter foi abrir a fraternidade da Comunidade de Fátima, em Portugal em dezembro de 2012. Em abril de 2014 ele voltou para o Brasil, onde ficou até agora.

Neste tempo na Comunidade sempre conseguiu se colocar perto das pessoas mais necessitadas, graças a sua grande sensibilidade que o ajudou a se aproximar das situações de vida mais difícil. Era um homem que gostava das coisas bem-feitas, da ordem, da limpeza, sempre foi muito organizado e cuidadoso com a própria pessoa e com as coisas, amante da natureza, da vida saudável.

Peter foi uma pessoa eclética, nunca teve medo de aprender a fazer algo novo, sabia trabalhar com a enxada ou carregar carrinhos, como não teve medo de aprender algo novo no mundo artístico. Por isso ele tinha uma bagagem artística imensa e sabia fazer de tudo: “pintar, dançar, montar vídeos, fazer recitais”, tudo com muito amor e muita paixão. Com pouco sempre conseguiu fazer coisas grandes e maravilhosas. Peter sentia que o chamado dele era aproximar as pessoas a Deus e tentava fazer isso por meio da própria sensibilidade e amabilidade, algo que continuou fazendo até domingo, o dia em que voltou para a casa do Pai.

Em uma carta de maio de 2012 para a Madre Elvira, fundadora da nossa Comunidade, antes da profissão definitiva, Peter assim escrevia: “Agradeço Deus Pai, pela vida reencontrada Ele levanta do pó o indigente e tira o pobre da imundície: Jesus me levantou, ele reergueu a minha vida, me colocou de pé e me fez encontrar com a verdade de mim mesmo. Anos atrás, quando comecei a refletir sobre qual seria o meu lugar na vida, rezei bastante e lembro que enquanto estava ajoelhado na Capela sempre voltava à minha cabeça essa frase de Jesus: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigo.” O amor de Jesus me conquistou e encantou. Eu sentia no meu íntimo o quanto esse amor me atraí, mas tive que enfrentar uma dura luta contra mim mesmo, pois eu tinha medo. No dia do meu Batismo, foi 13 de maio do ano 2000, dia de Nossa Senhora de Fátima, eu prometi a mim mesmo que essa seria a minha maneira de amar: doar a minha vida para os amigos. Eu sempre havia procurado tamanho amor>.

Obrigado irmão Peter, pois hoje podemos testemunhar que essa Palavra de Jesus se tornou vida em ti: tu realmente doaste a tua vida para os amigos.

Hoje, aquele amor tão grande, que você andou procurando e que te procurou, o Amor de Deus, abraçou a tua vida na sua infinita Misericórdia. Hoje, finalmente, você pode contemplar encantado e feliz, aqueles rostos sagrados de Jesus e da Virgem Maria, dos Anjos e dos Arcanjos, que tanto você amou, pintou e fez os outros conhecerem. Lá do Céu vela por essa Missão, onde se doou com tanto amor, oferecendo a tua vida. Vela pela Comunidade Cenacolo inteira e por todas as pessoas que tanto amou. Vela por todos nós. Obrigado! Grazie!"

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