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DIRETO DA ALEMANHA

Maestro Luiz Guilherme Godoy vai reger concerto no Sesc de Mogi, no mês de junho próximo

A convite do Sesc, ele estará à frente dos Meninos Cantores de Hamburgo, coral do qual é diretor artístico, para a apresentação da Missa de Santa Cecília, obra escrita em 1826, pelo compositor negro José Maurício Nunes Garcia

Darwin Valente
16/04/2022 às 08:31.
Atualizado em 17/04/2022 às 15:49

Maestro mogiano Luiz Guilherme Godoy fala de sua vida na Alemanha, de conquistas, dificuldades, Covid-19, da guerra e, é claro, da música, eterna música (Divulgação)

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DIRETO DA ALEMANHA

Maestro Luiz Guilherme Godoy vai reger concerto no Sesc de Mogi, no mês de junho próximo

A convite do Sesc, ele estará à frente dos Meninos Cantores de Hamburgo, coral do qual é diretor artístico, para a apresentação da Missa de Santa Cecília, obra escrita em 1826, pelo compositor negro José Maurício Nunes Garcia

Darwin Valente
16/04/2022 às 08:31.
Atualizado em 17/04/2022 às 15:49

Maestro mogiano Luiz Guilherme Godoy fala de sua vida na Alemanha, de conquistas, dificuldades, Covid-19, da guerra e, é claro, da música, eterna música (Divulgação)

Aos 34 anos, vivendo em Hamburgo, cidade portuária localizada ao norte da Alemanha, o maestro Luiz Guilherme Godoy, pode estar prestes a alcançar uma antiga aspiração: reger um concerto em sua cidade natal, Mogi das Cruzes, o que deverá acontecer no próximo mês de junho. A convite do Sesc, ele estará à frente dos Meninos Cantores de Hamburgo, coral do qual é diretor artístico, para a apresentação da Missa de Santa Cecília, obra escrita em 1826, pelo compositor negro José Maurício Nunes Garcia. Há tempos o maestro espera por esta oportunidade, que certamente não aconteceu antes por causa da pandemia, que afetou também o seu trabalho na Europa.

Luiz Guilherme é um músico multifuncional. Foi para sua atual cidade a convite da Ópera Estatal de Hamburgo, com o desafio de construir uma estrutura de “academia coral” para crianças e jovens. Além de preparar o coro infantil para as récitas de ópera e o coro juvenil para programas diversos, executa regência nas produções de ópera destinadas à difusão de repertório, junto à Filarmônica de Hamburgo, orquestra chefiada por Kent Nagano. Isso e mais a direção artística dos Meninos Cantores de Hamburgo que o acompanharão na apresentação, em Mogi. 

Antigo morador do bairro do São João, o maestro Luiz Guilherme Godoy volta a falar aos leitores de O Diário, nesta entrevista, via internet. Acompanhe:

Quais as recordações que você ainda guarda dos tempos difíceis de Mogi, marcados sempre pela sua capacidade de superar obstáculos? O que mais te marcou naquela época?
Tenho muitas recordações de Mogi, vivi aí até os 18 anos. Me recordo de muitas coisas boas da época em que vivi aí, como também do tempo em São Paulo, em Viena e agora em Hamburgo. Não tenho vontade de falar de obstáculos e dificuldades. Acho perigoso reduzirmos histórias de vida aos aspectos vinculados à superação. Não que eu negue que tenham existido - e existam ainda - obstáculos e dificuldades. Mas enquanto homem brasileiro, negro, também é importante falar aos tantos outros jovens negros e às jovens negras do sucesso, da realização profissional, contar a elas e a eles sobre coisas boas. Quando reclamo da fixação à temática de superação dizem que é natural, é o que vende, que não tem a ver com racismo estrutural. Mas isso é uma falácia, posto que no contexto brasileiro o espaço da história de superação parecer ser o único que figuras negras podem ocupar! Na revista Caras, na capa das revistas para adolescentes, por exemplo, quem aparece são sempre artistas brancos mostrando mansões, festas, luxo. A eles, portanto, é dado o direito ao sucesso!
O que mais me marcou em Mogi não foram os obstáculos. Foi a música! Fiz muita música em Mogi! Estudei muito no piano no que havia Washington Luiz, na escola do Vinícius Militão - que me deu uma bolsa de estudos - depois em casa, em meu primeiro instrumento. E tinha banda! Toquei por anos ao lado do meu irmão, de um primo e outros jovens músicos por quem tenho muito apreço! 
Cantei no coral da família: posto que minha família é bastante grande. E, depois, nos Pequenos Cantores de Mogi, à época, regidos pela magnífica Dulce Primo e acompanhados pela incrível artista residente em Mogi, Alex Sandra Grossi. Estive muitas vezes nos palcos aí de Mogi, quase sempre, quando criança. Depois da profissionalização, não tive mais tantas oportunidades por aí. Mas veja só quanta coisa boa há pra contar!

Como foi sua ida para o exterior e quais as principais barreiras que você teve de superar até alcançar o sucesso pleno, dos dias de hoje?
Quis o destino que minha primeira viagem internacional mais longa fosse pros EUA. Meu irmão ouviu no rádio que haviam aberto inscrições para jovens estudantes de música num programa do Departamento de Estado dos EUA, junto à Fulbright e à Unesco. Me inscrevi. Teve prova de inglês, análise de histórico acadêmico, tive de mandar um ensaio em inglês falando sobre a importância da música como veículo de entendimento entre os povos do mundo e por fim fui um dos três brasileiros escolhidos. Passei um mês e meio entre Boston, Tanglewood, onde há um festival bastante importante, Nova Iorque e Washington DC, estudando, tocando e cantando. 
A vinda pra Europa se deu a partir de um convite da Universidade de Viena, em cujo coro trabalhei, entre agosto e outubro de 2010. 
À época, ainda não tinha estudado regência. Mas praticava desde criança e fiz alguns semestres de matérias optativas com a Mara Campos, na Escola Municipal de Música EMM (SP) e com Aylton Escobar, na USP. Contudo, era aluno de piano, tendo me formado na classe de um professor que me acolheu após já se ter aposentado, o professor José Eduardo Martins. 
Pois bem, em Viena montamos um programa de música coral brasileira. A partir desta experiência, um grupo de cantores do coro fundou a Associação Coro Novo Mundo e me trouxe uma segunda vez pra Viena, em 2011. Lá fiquei até 2019, com uma passagem de um ano em Portugal e outro ano na Alemanha, durante o mestrado em piano. Depois deste mestrado, estudei regência coral e orquestral em Viena. Enquanto isso, trabalhava junto às principais instituições musicais de Viena, como os Meninos Cantores, a Singakademie da Konzerthaus, a Ópera Estatal, etc. 
Tudo isso só me foi possível pela experiência adquirida no Brasil, sobretudo enquanto aluno de Renato Figueiredo, na Escola Municipal de Música de São Paulo. 

Além de suas múltiplas funções em Hamburgo, ainda sobra tempo para estudar?
Durante o primeiro lockdown cogitei iniciar um doutorado, mas por ora tenho muito o que fazer no palco. Minha formatura em regência orquestral em Viena foi o último concerto que regi com orquestra na Áustria, antes de me mudar pra Alemanha, em 2019. Regi o Pássaro de Fogo de Stravinsky com a Orquestra da Rádio Austríaca, a ORF, que hoje é regida por Marin Alsop, conhecida aí no Brasil por ser ex-diretora da Osesp. Este concerto foi provavelmente o mais marcante da minha vida pelo aspecto simbólico envolvido. Fui o primeiro brasileiro negro a reger ali. E, de acordo com os arquivos da casa, o quarto brasileiro a reger uma orquestra estatal austríaca, ali, no Musikverein de Viena. Os demais foram Eleazar de Carvalho, Heitor Villa-Lobos e Isaac Karabtchevsky.

Nossa mais recente conversa aconteceu justamente no começo da pandemia em território europeu. Como foi esse período? Que problemas a pandemia causou e como você conseguiu ultrapassar este período?
A pandemia nos afetou a todos de forma muito devastadora. Já no primeiro mês de pandemia perdemos alguns dos principais regentes de corais do Brasil, Martinho Luthero Galati e Naomi Munakata. Apesar de minha família ser grande, não houve casos diretos de perdas pela Covid. Dou graças a Deus por isso! 
Por aqui fomos nos adaptando e praticamente não deixamos de fazer música. Durante um bom tempo apenas por Zoom, mas logo conseguimos o apoio do Departamento de Epidemiologia da Clínica Universitária de Hamburgo, que fazia medições e testes durante nossos ensaios e assim fomos ao limite do que era permitido fazer com responsabilidade, sem nos colocar - e assim à sociedade, posto se tratar de uma pandemia - em risco. 

Qual o fato que mais lhe marcou pessoal e profissionalmente durante o período da crise, quarentena e afins?
Pessoalmente o que mais me marcou foram as vidas ceifadas - os números, atrás dos quais se escondem histórias de vida. Os números absurdamente altos de vidas que perdemos, entre outras coisas, por não estarmos aptos, enquanto sociedade, a protegermos uns aos outros. Por termos falhado. Profissionalmente me marcou o fato de que a importância da cultura passou a ser relativizada. Mas a argumentação que se usava, pelo menos aqui, era que cultura não era “sistemicamente relevante”. Eu acho que poderiam e tinham que ter decidido fechar tudo, como fizeram, mas sem ter de dizer que cultura é irrelevante! 

Você chegou a ser contaminado pela Covid-19? Por favor, relate a sua experiência. Chegou a ser internado? Ficou com algum tipo de sequela?
Tive Covid em janeiro deste ano. Quase não tive sintomas. Fiquei feliz por saber que não contaminei ninguém, posto que aqui nos testamos diariamente e, tendo descoberto a infecção a tempo, minha carga viral ainda não atingira níveis contagiosos quando passei a me isolar.

Pois mal começamos a nos livrar da pandemia, surge a guerra na Ucrânia. Como você, que é vizinho do território conflagrado, está convivendo com a guerra? Seu trabalho foi afetado pelos conflitos? 
Toda a sociedade daqui discute a guerra muito frequente e intensamente. Percebo que a opinião da maioria dos brasileiros, mas também dos demais estrangeiros do sul global, em geral se diferencia da dos alemães. Cada país tem um histórico que justifica a visão de mundo que se tem ali e os espectros políticos vigentes. Aqui, eles se dizem neutros. Mas a gente sabe que isso não existe…

De que forma a música que você lidera está sendo afetada pela guerra? Os teatros, casas de óperas ou outros espetáculos foram, de alguma forma, atingidos pela atual situação?
Existe uma certa “tensão” no ar. Espera-se que artistas próximos ao Putin se posicionem contra ele. Mas isso pode causar dificuldades a essas pessoas e suas famílias! A gente bem sabe o que é lidar com ditadores. Eu fico aborrecido com esta situação, posto que russos e ucranianos estão sofrendo, mas há essa cobrança para que nos posicionemos a favor de um lado. Acho abominável o que Putin faz e sou absolutamente contra isso, como sempre fui contra a homofobia e o machismo instaurados na Rússia, por exemplo. Mas reconhecer isso não significa “aprovar” um lado numa guerra. Eu desaprovo a guerra. E acho que posicionar-se a favor de um lado é tomar parte na guerra.

Vocês mantinham algum tipo de intercâmbio com músicos ucranianos ou russos? Costumavam se apresentar por lá? Conte alguma história vivida por você neste período.
Os artistas ucranianos têm sido convidados a se apresentar, organizam concertos beneficentes, recebem auxílio. E devem receber. Todo refugiado de guerra deveria ser acolhido. Entre os russos, aqueles que são próximos a Putin, alguns muito famosos, foram despedidos de seus empregos e banidos do cenário musical. A estes artistas citados, milionários, isso não afeta essencialmente, vitalmente. Mas há muitos artistas russos que vivem sob uma espécie de “anulação” por “pertencerem ao povo contra o qual estamos em guerra”, digamos. É uma situação complicada. Antes de matar soldados ou civis, a guerra mata a empatia humana.

Luiz, você deve ter acompanhado muitos dramas por conta da guerra, pessoalmente ou pela tevê. O que mais de impressionou até agora?
O que mais me choca na guerra até agora é o escalonamento da dignidade humana que se faz, mesmo numa situação dessas. Quando refugiados são separados entre nativos daquele país ou estrangeiros, quando indianos e afegãos e brasileiros e nigerianos são impedidos de entrar num ônibus ou num trem, em rota de fuga, isso escancara mais uma vez a hipocrisia na qual estamos mergulhados.

Como fica o futuro da música nesta região, após o término dos conflitos?
A música nunca morre.

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