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Ele ficou cego aos 10 anos, mas o judô mudou a sua vida

Rogério Campos dos Santos, de 36 anos, destaca a importância do esporte para não cair em depressão, retomar os estudos e resgatar a socialização; hoje ele treina em Mogi.

Larissa Rodrigues
14/08/2022 às 11:32.
Atualizado em 14/08/2022 às 19:03

(Foto: arquivo pessoal)


Um divisor de águas. Assim Rogério Campos dos Santos, de 36 anos, define o esporte – mais especificamente o judô – em sua trajetória. Quando tinha apenas 10 anos, a vida dele mudou completamente. Isso porque ele ficou cego por conta de um glaucoma congênito. A partir dali, chegou a ficar próximo da depressão, não queria mais estudar e socializar, mas foi resgatado quando começou a frequentar os tatames.
Nascido na Bahia, Rogério veio para Mogi aos 6 anos de idade, e quando perdeu a visão, parou de frequentar a escola – por decisão da mãe dele. Por ainda ser uma criança, ele conta que não tinha real noção do que estava acontecendo e, durante esse período em casa, ainda não tinha entendi o que realmente tinha acontecido. Até que aos 12 anos, uma assistente social avaliou a situação dele e disse que o menino não podia ficar longe dos estudos e precisaria voltar pra uma unidade de ensino.
“Foi quando minha mãe me matriculou de novo em uma escola do Estado e minha ficha foi caindo. Eu tinha muita dificuldade de ir para a escola e interagir. Nesse ponto, realmente parei e pensei ‘poxa, sou cego’. E isso começou a me impactar. Eu comecei a ficar ruim, quase entrei em depressão. Depois de uns dois anos na escola, por decisão minha dessa vez, eu larguei os estudos de novo”, conta.
Mas, enquanto não conseguia interagir com a maioria dos estudantes, Rogério conheceu outro aluno com deficiência visual. Foi ele quem indicou um projeto de judô para cegos que tinha o apoio da Secretaria de Esportes de Mogi e era comandado pelo professor Helio Rong Junior. Rogério, então, começou as aulas aos 15 anos e foi aluno do professor de 2002 até 2012. 
“O judô me proporcionava uma experiência muito diferente do que era a escola, por exemplo. Porque no esporte não sentia uma diferença de mim para os outros. Eu me sentia igual, treinava com pessoas que enxergavam e mesmo assim conseguia me sair bem. Lutávamos todos juntos e eles não tinham uma vantagem tão grande. O que realmente me motivou foi essa sensação de igualdade”, ressalta o lutador.

(Foto: arquivo pessoal)


Em 2012, o projeto da Prefeitura acabou e Rogério deixou de ser associado a uma academia confederada, o que era necessário para continuar participando das competições. E nas viagens que fez enquanto ia para as disputas acabou conhecendo pessoas de todo o Brasil, inclusive do Mato Grosso do Sul, estado pelo qual ele luta até hoje, já que foi de lá que recebeu o apoio.

(Foto: arquivo pessoal)


E, então, a Associação Nami de Judô, de onde era o professor Hélio, manteve as portas abertas para que Rogério continuasse treinando. Ele treina em Mogi, mas ainda compete pelo Instituto Sul Matogrossense para Cegos Florivaldo Vargas.
Os anos de treino de lhe renderam medalhas de ouro: o lutador já foi campeão do Grand Prix de Judô Paralímpico por três vezes, em 2004, 2009 e 2010. No ano passado, foi vice-campeão da disputa. Ele já esteve também na competição mundial da modalidade. 
As conquistas de Rogério não ficaram apenas nos tatames. Depois que ingressou no esporte, ele se sentiu disposto também para lutar em outras áreas da vida. O lutador foi fazer supletivo para concluir o Ensino Fundamental e o Médio e, na sequência, começou o Ensino Superior. 
Já formado em Pedagogia, ele cursa agora Direito e trabalha no Fórum de Mogi. Ele conta ainda que conquistou a casa própria e é casado e tem uma filha.
“Eu falo sempre que devo muito ao judô, porque ele realmente foi o que mudou a minha vida. Antes do esporte, eu não tinha contato com ninguém, estava me isolando e parei de ir para a escola. O esporte me levou de volta para o meio social, comecei a viajar e a conhecer pessoas e lugares. Se hoje tenho emprego, família e moradia isso foi tudo consequência daquele início, daquela virada de chave que o judô trouxe para minha vida”, ressalta.
A história de Rogério já serviu de inspiração para muitas pessoas. Ele, inclusive, chegou a atuar em um projeto de reabilitação em uma associação voltada para pessoas com deficiência visual.

Dedicação para conquistar a faixa preta

Ao começar frequentar os tatames, o sonho de muitos judocas se assemelha: a conquista da faixa preta. Com Rogério Campos dos Santos foi diferente. Ele se dedicou por anos às competições, mas, há dois, decidiu que faria o exame para ter a faixa preta. Desde então, ele tem trabalhado intensamente para aprender todas as técnicas e estar com elas bem definidas e decoradas no dia de sua avaliação, em 22 de outubro deste ano.
Desde 2008, Rogério está na faixa marrom. Mas ele sempre foi competidor e, por isso, nunca se dedicou à parte da docência e da técnica, o que é necessário para conseguir a faixa preta. E, então, com o apoio do sensei Edvaldo Félix e do sensei Fernando Tomé tomou a decisão, em 2020, de que treinaria para avançar o grau na modalidade. Então, nesses dois últimos anos passou a fazer treinos específicos com o que precisa para ser aprovado no exame.
“Quando se é um competidor, você se dedica a aprender uma determinada quantidade de golpes, que é o que te fará competir bem e buscar a vitória nas lutas. Agora, para conquistar a faixa preta, é preciso treinar muito para aprender todas as técnicas, porque você e não sabe o que será exigido pela banca no dia do exame para que você vire um mestre. Então, o sensei Edvaldo disse que me ajudaria e nós começamos os treinos”, conta Rogério.
Após esses anos de treinamento, o lutador conta que já conseguiu cobrir todo o universo de técnicas. Mas ainda precisa de muita repetição para que tudo esteja bem gravado na memória e possa ser executado de forma que conquiste os juízes da banca. Já que quando eles solicitam determinada técnica, a resposta deve vir de maneira rápida e automática.
“O exame será em outubro, mas já estou com um friozinho na barriga. Mas, desde que comecei a me preparar, veio treinando três vezes por semana a estou me dedicando bastante. No último mês antes da avaliação, o ideal é ter um treino ainda mais forte e intensivo e nós faremos isso”, afirma Rogério.

Graduações
As faixas do judô são divididas em quatro. As primeiras são as faixas básicas, compostas pelas faixas branca; branca/cinza; cinza; cinza/azul; azul; azul/amarela; amarela e amarela/laranja. Depois, são as intermediárias, que são as faixas laranja, verde, roxa e marrom. Depois da faixa marrom, o praticante se torna graduado, ou assim por dizer um yodansha, recebendo a faixa preta e o primeiro grau, se tornando um Shodan. Os já graduados podem subir para 1º, 2º, 3º, 4º e 5º dan. Na Graduação Superior, que dá continuidade do 6º ao 10º dan, as faixas são coral (vermelha e branca) e vermelha. (L.R.)

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