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Conheça Rose, a catadora de recicláveis que realizou o sonho de dançar

Rose Madalena da Silva, perguntou se poderia assistir a uma aula em um estúdio de dança em Jundiapeba, mas ela não apenas dançou como foi gravada e o vídeo alcançou milhões nas redes sociais

Heitor Herruso
28/05/2022 às 08:05.
Atualizado em 28/05/2022 às 08:06
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Conheça Rose, a catadora de recicláveis que realizou o sonho de dançar

Rose Madalena da Silva, perguntou se poderia assistir a uma aula em um estúdio de dança em Jundiapeba, mas ela não apenas dançou como foi gravada e o vídeo alcançou milhões nas redes sociais

Heitor Herruso
28/05/2022 às 08:05.
Atualizado em 28/05/2022 às 08:06

Dizem que “a vida é feita de oportunidades”. Catadora de recicláveis, a moradora de Jundiapeba Rose Madalena da Silva, de 54 anos, queria dançar. Mas lhe faltava essa tal chance, o que não a impediu. Foi atrás e conseguiu. Várias vezes durante a semana passava em frente a um estúdio de dança. Certa vez, perguntou se poderia assistir a uma aula. Entrou, participou e o vídeo da coreografia foi assistido por milhões de pessoas nas redes sociais.

Depois de ter participado de uma aula de dança com o professor Lucas Alfeu, Rose Madalena da Silva ficou famosa nas redes sociais. O vídeo dos passos da dupla, ao som de ‘Expectativa x Realidade’, dos sertanejos Matheus e Kauan, alcançou mais de 11 milhões de pessoas (Divulgação)

“Sempre a via passando na rua. E ela passou a me cumprimentar como ‘meu professor’, sempre muito simpática e educada. Um dia, à tarde, estava com um aluno, limpando a escola, e ela disse que queria falar comigo. Disse que achava linda a dança, e confessou que ficava olhando as aulas à noite, pelo vidro da porta”, conta o proprietário do estabelecimento, Lucas Alfeu Barbosa, 28.

Após ficar conhecida, Rose recebeu doações de roupas e alimentos, além de um “dia de princesa” em um salão de beleza (Divulgação)

Sem pensar duas vezes, ele a deixou entrar, e quando já estava no local, Rose abriu o jogo: “meu sonho é dançar com você”, afirmou para, na sequência, se desculpar por “estar suja”. Lucas foi rápido e respondeu que não havia problema algum. Ela estava catando materiais recicláveis, e portanto trabalhando honestamente, assim como ele.

Não demorou para que a dupla começasse a dançar ao som de ‘Expectativa x Realidade’, dos sertanejos Matheus e Kauan. E Lucas é só elogios. “Ela leva muito jeito. Nunca tínhamos dançado antes, e ela tem a marcação certinha”. Dá para perceber isso no vídeo, gravado por um aluno do estúdio. Além de abraçar o professor, Rose diz estar arrepiada e o agradece repetidas vezes. 

A lição que fica é que “a dança é para todo mundo”, diz Lucas. Ou seja, embora tenha alcançado mais de 11 milhões de visualizações nas redes sociais e rendido reportagens em diferentes veículos de comunicação, produzir o vídeo não era o objetivo. O propósito era realizar um sonho.
Da dança, nasceu uma amizade entre Rose e Lucas. Ela continuou passando em frente ao estúdio, ele continuou conversando. Descobriu que a amiga tem “uma doença, o alcoolismo”, e por isso “merece uma chance, merece a vida”.

(Divulgação)

Rose ficou conhecida entre os alunos do estúdio e recebeu algumas doações de roupas e alimentos. Um site, o ‘Só Notícia Boa’, decidiu organizar uma campanha de financiamento coletivo, uma vaquinha, para ajudá-la ainda mais.

A ideia, conta Lucas, além de conseguir dinheiro para recuperar pertences de Rose, que foram destruídos com uma forte chuva que alagou sua casa, era “levá-la para Pernambuco, para estar perto das filhas, ver os netos e sair do ambiente em que está hoje, onde as amizades acabam influenciando negativamente”. 

Mesmo que dos R$ 15 mil solicitados apenas R$ 882,00 tenham sido arrecadados, o professor de dança garante que seria possível adquirir a passagem. Ele afirma ter contato com a família de Rose no Nordeste, mas que nas últimas semanas a catadora de recicláveis estava indecisa sobre ir ou não. Pode ser, inclusive, que o frio dos últimos dias a tenha feito ficar mais tempo em casa, já que não tem passado na porta do estúdio.
De qualquer maneira, enquanto a viagem não sai do papel, Rose já recebeu um “dia de princesa” com recursos doados por alunos e parceiros do estúdio. “A casa dela encheu de água e ela apareceu no estúdio toda molhada. Então, no dia que fomos gravar uma matéria com a TV Diário, demos um dia de princesa para ela”. 

Foi uma ação colaborativa. Cabeleireira, uma aluna deu o dia no salão. Manicure, uma outra aprendiz, deu a pintura das unhas. Comerciante, mais uma deu uma sapatilha. E assim Rose pôde sorrir, vendo, como define Lucas, uma “chance de se reerguer, de parar de beber, de ter uma vida nova”. 

Em um destes momentos de felicidade, Rose contou à Lucas fragmentos da própria história. Sem fotos da época de infância, ela recorre apenas à memória para se lembrar dos tempos em que vivia em um orfanato. Por lá, participava de apresentações de dança. Era amiga do palco. Por isso, quando assistia as aulas pelo pequeno vidro da porta do estúdio, voltava a se sentir criança. E vem daí a afinidade com os passos.

(Divulgação)

Agora, além desse sentimento de nostalgia, ela é “famosa” entre os frequentadores o local. “Já fez aulas com a gente, dançou até com meu pai. Sempre é bem-vinda. E já falei para ela que quero a apresentar no final do ano, no espetáculo de nosso estúdio, que tenho o sonho de fazer no Teatro Vasques”, finaliza o professor.

 "A dança muda vidas"

Anos antes de descobrir que Rose Madalena da Silva manda bem nos passos de ritmos como sertanejo universitário e forró, Lucas Alfeu estudava engenharia e trabalhava na indústria. Nessa época, a dança já era um hobby, mas parecia pouco. Ele queria “ir mais longe”, e com o apoio da mãe abandonou a faculdade e passou a dar aulas em academias de Jundiapeba.

“Demorou para que eu tivesse uma escola. Primeiro comecei a dar aula na garagem da minha mãe, que não tinha telha, então quando chovia não dava para trabalhar. Depois comprei espelho, fiz uma cobertura, arrumei um espacinho no quintal dela”, lembra o professor, que um ano e meio após esta fase teve “coragem para alugar um salão e abrir um estúdio”.
Agora, seis anos mais tarde, ele sorri ao contar que trabalha com a esposa, Gisele, e dança também com a filha, Analu, de 5 anos. É por acreditar na dança como uma ferramenta social e de reabilitação que ele apoia Rose e também outras pessoas. 

“Encontrei uma forma de ajudar com algo que gosto de fazer. Tenho vários e vários relatos. Depressão é meio que normal de ser ter hoje em dia. Não é preciso ter vergonha. Muitos alunos chegam com crises de ansiedade, homens que não tinham coragem falar com a mulher, não sabiam como se posicionar perante ao público. Com a dança consegui ajudar essas pessoas”.

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