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ENTREVISTA

Conheça Joey, o mogiano trans que luta contra a violência e preconceito

Da Ong Afrontarte, Joey Bernardo, trans que adotou o nome social no ano passado, defende a escuta e o acolhimento no combate à violência na escola e no trabalho

Eliane José
19/02/2022 às 16:32.
Atualizado em 22/02/2022 às 09:34

LUTA Joey Bernardo (com bandeira) atua na ong Afrontarte, em Jundiapeba (Foto: Eisner Soares / O Diário)

Uma conversa com o mogiano Joey Bernardo de Jesus Santos, de 20 anos, dá esperança e, ao mesmo tempo, um choque de realidade sobre o desamparo vivido por jovens integrantes da comunidade LGBTQI+ (sigla que denomina o movimento que representa minorias sexuais e de gêneros, como lésbicas, gays, bissexuais, travestis, trans, agêneros, queers e pansexuais).

Joey é uma das lideranças da  Associação Afro Brasileira de Cultura e Arte (Afrontarte), criada em 2014 pelo professor Lindemberg Alves, presidente do Conselho Municipal de Igualdade Social de Mogi das Cruzes.

Até chegar na ong que luta para reformar a sede própria e atua na defesa da cultura, arte e educação, a trajetória de Joey foi  marcada pela troca de escolas públicas, conflitos familiares e dificuldades para se manter empregado. Hoje, aliás, ele está à procura de trabalho.

O jovem frequentou as escolas “Maria Isabel dos Santos Melo”, “Cid Boucault” e “Paulo Ferrari Massaro” até concluir, em 2019 o Ensino Médio.

Nos três endereços, a partir dos 13 anos, a rotina escolar foi marcada pelo processo de assumir-se como um homem trans. “Eu me escondia, tinha medo e encontrei alguns poucos professores que me acolheram. Um ou dois, apenas”.
Após uma grave crise pessoal, a aceitação da mãe - até hoje, o pai não o reconhece e ambos não se falam - e a chegada à Afrontarte, o acolhimento materno e dos integrantes da ong deram a ele a sustentação para a tomada de decisões como a mudança do nome social, concluída em 2021. 

“Ali eu fui bem acolhido como eu sou”, lembra, contando que “o mais difícil é a questão da família. O meu pai coloca os valores da religião acima do amor que ele tem por mim. A falta de aceitação acontece em todos os lugares. Na escola, quando na lista de presença, apesar de a pessoa trans dizer o nome social, professores fazem a chamada com o ‘nome morto’. No mercado de trabalho, já aconteceu de eu ser chamado por causa do meu currículo e, quando eu chegar, a pessoa dizer que eu não era quem ela esperava”, partilha.

A escalada da transfobia em Mogi das Cruzes, com a morte de transexuais nos últimos anos, agrega ainda mais insegurança e medo ao jovem. “A gente vive com medo, muito medo,orque dentro de casa e da escola não há respeito e reconhecimento. A falta de trabalho é um fator a mais”, destaca.

Ao ser afastado da escola e do mercado de trabalho, os trans, “que precisam pagar o aluguel, porque precisam viver” e acabam nas ruas, fazendo programas, e são ainda mais vítimas de agressões e violências.

É no meio dessa realidade que Joey passou a representar a Afrontarte na defesa e proteção da comunidade  LGBTQI+ e, desde a semana, acompanha os desdobramentos da agressão sofrida por uma aluna trans da escola estadual Galdino Pinheiro Franco, de Braz Cubas.

Até chegar à violência física, Joey conta que a comunidade sofre com apelidos desrespeitosos, comentários maldosos e o afastamento das pessoas. “Em algumas escolas, encontrei amigos que se identificavam comigo, em outras não, e, então, eu vivida escondido”.

Joey lembra das primeiras palestras da ativista Alexandra Braga, na escola pública, que fortemente o impactaram.  E se inspira em lideranças da luta contra o preconceito sexual para ocupar esse mesmo local de fala e acolher jovens que enfrentam o que ele viveu dos 13 aos 19 anos.

“Eu gostaria de falar, de ouvir outras pessoas como eu, e acho que esse choque de consciência, a ocupação do espaço pelas pessoas trans, gays, pela comunidade LGBTQI+, é o que poderá mudar a sociedade, ainda conservadora”, opina.
A Afrontarte, afirma ele, mantém postagens sobre essa luta e participa de atos e rodas de discussão em Jundiapeba, onde está sediada, e outros pontos da cidade, quando convidada.

“Não tem como adiar a ocupação do nosso lugar na sociedade, nós temos o direito de viver, e de viver em paz”, replica, admitindo, no entanto, que essa jornada está começando. “O que vem acontecendo em Mogi, com a morte e violência às pessoas trans, precisa ganhar visibilidade”, indica, incluindo, logo em seguida, que apenas a presença de lideranças e a escuta de promessas, não farão diferença.

“O que é crime deve ser punido, investigado”, pondera.

Na escola, em específico, ele afirma que falta preparo e respeito. “A escola tem de mudar, acolher”, propõe. “Quando mais novo, eu gostaria de ter falado com pessoas que me entendessem. E, até hoje, eu não tenho amigos que não são trans”.
A quem busca orientação, Joey recomenda a participação na Afrontarte. A ong realiza uma série de eventos, que pode ser acompanhado pelo Instagram @afrontarte.cultura

Cultura do Amor

O professor Lindemberg Alves fundou a Afrontarte, em 2014, e se inspira em Nelson Mandela. “Eu acredito que a pessoa que aprende a odiar, também aprende a amar, e a cultura, arte e educação são os meios para combater o racismo, a transfobia, a fome, a violência...”, resume ele.

O educador defende que a arte pode tornar a escola mais atraente. E relata que a visibilidade hoje, com as redes e filmagens que logo viralizam, não deixam a violência e o bulliyng entre quadro paredes. “Quando um aluno, todo dia, é chamado de feio, errado, sujo, ou alguém diz que ele é um pecado, ‘ô bichinha’, ‘ô neguinho’, tem um dia, que ele estoura. O respeito precisa ter lema na escola, no trabalho, no convívio com as pessoas”, sintetiza.

Nome social

Diretrizes e decisões tomadas após as cenas de violência em uma sala de aula da escola Galdino Pinheiro Franco, na semana passada, começam a tomar forma após encontros articulados por entidades como a Afrontarte, a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de SP), e a diretoria regional de Ensino de Mogi.

Uma dessas medidas será um levantamento sobre os alunos trans que frequentam as escolas da cidade.
No Estado de SP, um balanço mostra que essa comunidade possui 1,1 mil pessoas.

“Saber quantas são e onde estudam será importante para a realização de um trabalho de conscientização com o professor e os alunos”, diz a vereadora Inês Paz (PSOL), lembrando que o despreparo e a cartilha de valores conservadores são prejudiciais diante de situações como o uso do nome social desses cidadãos.

Mogi das Cruzes aprovou uma lei municipal, de autoria de Inês, que impõe essa exigência nas repartições públicas.
“Na escola, quando o aluno é menor, os pais precisam autorizar”, mas quando o aluno tem mais de 18 anos, o nome social deve ser adotado.

Ainda estão sendo levantados detalhes da ocorrência que ganhou a internet pelas imagens dos socos desferidos entre alunos. “Fala-se que a origem teria sido porque essa aluna protegeu uma amiga, negra. Mas, à Polícia Militar, na hora da ocorrência, isso  não foi relatado. Isso será investigado. O que de fato já acontecia era a discriminação à aluna que tinha adotado outro nome social”. 

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