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As histórias de Ciné, amiga de longa data do Padre Alessandro desde os tempos difíceis

Moradora do Distrito Federal relembra histórias do início de carreira, vividas pelo religioso

Darwin Valente Publicado em 07/01/2022 às 15:34Atualizado há 16 dias
Ciné lembra das dificuldades enfrentadas pelo padre Alessandro Campos / Foto: arquivo pessoal
Ciné lembra das dificuldades enfrentadas pelo padre Alessandro Campos / Foto: arquivo pessoal

Entre as muitas recordações que o padre Alessandro Campos recebe, uma é especialmente bem-vinda e festejada por ele, sempre que aparece em sua residência. Ela vem de longe, do Distrito Federal, e não chega pelos Correios, mas pessoalmente, para lhe trazer lembranças do início de sua vida religiosa, quando o padre recém-ordenado em Mogi das Cruzes, foi morar em Brasília, exercendo as funções de capelão das Forças Armadas.

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Distante de sua família, o jovem padre passou a receber apoio de uma senhora de nome Maria do Patrocínio, hoje com 59 anos, que todos conheciam como “Ciné”, corruptela de Franciné, nome preferido de sua mãe, mas que o pai nunca aceitou sequer ouvir falar.

“Logo que conheci o padre Alessandro, surgiu entre nós uma amizade de mãe e filho, algo fraternal, que até hoje eu não consigo explicar”, contou ela a O Diário, quando esteve em Mogi, pela última vez, para acompanhar a missa de sétimo dia pela morte de “vó Joana” e o lançamento do livro “Aceita que Dói Menos”, no Mogi Shopping.

“Ciné” lembra como eram difíceis aqueles tempos de Brasília, em que o padre, sem recursos, gravou com amigos um CD rudimentar, aplicando nele os únicos R$ 1 mil que dispunha à época. “Era um CD de fundo de quintal mesmo, que ele gravou em Brasília, e que eu o ajudava a vender nas portas das igrejas de cidades da região, onde ele celebrava missas. Junto com os disquinhos, fazíamos também camisetas com a imagem do padre estampada na frente, para ajudar na divulgação de sua carreira, ainda começando, com muitas dificuldades”. 

O capelão militar, que era chamado para celebrar casamentos de pessoas importantes daquele meio, não dispunha sequer de um terno. “Ciné” se lembra que, ao ouvir tal constatação do religioso foi até o Conjunto Nacional, conhecido centro comercial de Brasília e comprou-lhe um terno, que ela pagou em 12 meses, com o salário de porteira de prédio da capital do País. “Mas ele foi bonito para o casamento”, afirma ela, orgulhosa.

Histórias de dificuldades não faltaram nos tempos de padre Alessandro em Brasília. Como o dia em que o religioso resolveu viajar até Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, para apresentar a sua missa sertaneja aos visitantes da Canção Nova, comunidade católica brasileira fundada pelo monsenhor Jonas Abib no ano de 1978, seguindo as linhas da Renovação Carismática.

O local que recebe visitantes de todo o País, seria ideal para o jovem padre mostrar a novidade que fazia muito sucesso na região do Planalto Central, mas havia um problema: faltava dinheiro suficiente até para a longa viagem de dois carros que levariam o padre e os músicos que o acompanhavam nas missas. Juntadas todas as economias, parte do grupo partiu no Peugeot 208 de “Ciné”, que mais parecia “uma lata de sardinha” e os demais integrantes num veículo maior, emprestado por um amigo. Eram, ao todo, oito pessoas, mais instrumentos, como violão e sanfona, que tomavam muito espaço.

“No nosso carro só tinha uma garrafa de água, outra de café e um pacote de biscoitos de polvilho. Quando chegamos próximos da Canção Nova, não tinha mais dinheiro para o pedágio. Eu conversei com moça da cabine, disse que estávamos com um padre e prometi que na volta, eu deixaria o dinheiro. Acho que ela ficou com dó da gente e nos deixou passar”, relembra ela, divertida.

A esperança seria fazer dinheiro com a venda dos CDs artesanais do padre Alessandro junto aos frequentadores da comunidade católica. “Ciné” se lembra que tinha um discman, primeiro reprodutor portátil de CDs, daqueles bem antigos, e colocava o fone nos ouvidos das pessoas para que elas conhecessem as músicas. O disco que custava R$ 15 chegou a ser vendido até por R$ 5. Com os disquinhos numa sacola improvisada, ela saiu caminhando pelo enorme espaço ocupado pela Canção Nova, em Cachoeira, oferecendo a quem encontrava pela frente. Foi assim, até o começo da tarde. “Eu calço 37 e, naquela hora, a sandália não entrava mais no meu pé e eu precisei comprar uma número 40 por causa do inchaço, de tanto caminhar para tentar vender os CDs do padre. E foi então que um verdadeiro milagre aconteceu”, conta ela.

Quando não aguentava mais as dores nos pés, ela foi falar com uma das funcionárias da Canção Nova, pedindo emprestada uma das mesinhas usadas por elas para vendas de pequenos objetos religiosos para os visitantes. Ela negou. Não tinha autorização para isso. 

“Ciné” conta que naquele momento ocorreu um forte vendaval que fez voar e cair por terra todos os produtos e o dinheiro arrecadado, até então, pelo pessoal da igreja. 

Foi então que ela, segurando e dobrando a ponta inferior de sua blusa, transformou a vestimenta numa espécie de sacola, onde foi depositando as notas de dinheiro que tinham se espalhado com o vendaval. 

Quando a ventania terminou, “Ciné” conta que tinha em seu poder uma grande quantidade de dinheiro. Mas tratou de devolver tudo o que havia conseguido recolher. “Esse é um dinheiro dado para a Igreja e é com ela que precisa ficar”, disse ela para a representante da Canção Nova que, atônita ao receber todas aquelas notas, lhe ofereceu a sonhada mesa para que pudesse comercializar, mais confortavelmente, os discos do padre Alessandro. 

“Às 7 horas da noite, não havia mais CD algum para vender”, conta ela, que não se esqueceu de deixar o pagamento do pedágio na viagem de volta.

“Ciné” ainda lembra que durante aquela visita à Canção Nova, o desconhecido Alessandro, se encontrou com o padre Fábio de Melo, que já fazia grande sucesso entre o público católico. Ao ver a apresentação dele, o visitante teria prometido: “Um dia vou estar ali”. 

“E hoje ele chegou lá, tornando-se um grande amigo de Fábio de Melo”, conta.

“Ciné” também conta uma versão ainda desconhecida para a vinda de padre Alessandro Campos para Mogi. Ela conta que ele pediu dispensa do cargo de capelão do Colégio Militar depois que, certa noite de chuva intensa, em Brasília, ele teria visto uma senhora, com ajuda de uma bengala, tentando, com muita dificuldade, caminhar em direção da igreja, onde ele rezaria a missa. Segundo ela, os superiores hierárquicos do padre não atenderam ao seu apelo para que um carro fosse buscar a senhora, em meio ao temporal, para trazê-la até a porta do templo. 

“Naquele momento, ele decidiu que não seria mais padre do Colégio Militar”, diz.

Na verdade, o padre, àquela altura, já vinha fazendo contato com o bispo diocesano de Mogi das Cruzes, dom Pedro Luiz Stringhini, que lhe garantiu apoio para que pudesse levar adiante os seus planos de evangelização usando a música sertaneja com seu principal instrumento de divulgação.

“Numa noite, ele foi até minha casa e disse que estava vindo para Mogi. Achei que era brincadeira, que viria apenas visitar a avó, dona Joana. Mas ele já havia pedido baixa do serviço no setor militar e acabou vindo em definitivo para a cidade onde se encontra até os dias atuais.

Em Brasília, ficaram “Ciné” e suas memórias, além de muitos guardados, verdadeiras relíquias do início da carreira de padre Alessandro Campos. Ela ainda guarda exemplares do primeiro CD com músicas sertanejas gravado pelo religioso, em Brasília. Tem ainda outros CDs com pregações feitas por padre Alessandro, que eram gravadas para serem vendidas nas missas que ele celebrava em Goiânia, Trindade, Formosa e outras cidades de estados próximos do Distrito Federal. Ela ainda guarda também camisetas com estampas do padre.

“Quando o vi cantando pela primeira vez, já imaginava que teria tudo para fazer sucesso.

Parecia um passarinho na gaiola. Seu potencial era para fazer sucesso cantando música sertaneja”, conta ela, que é somente elogios ao padre:

“Nós imaginávamos que quando ele subisse na vida, não iria dar nem bola para pessoas como eu, que sou uma simples porteira de prédio. Mas do jeito que ele se tornou nosso amigo, da primeira vez que o vi, continua me tratando até hoje. Ele é o padrinho do meu neto”, conta “Ciné”, que já recebeu uma promessa do velho amigo: “Padre Alessandro me disse que se não tiver alguém para cuidar de minha velhice, ele irá cuidar. E eu acredito nisso, pois ele nunca me abandonou”.

A brasiliense é conhecida dos familiares mais diretos do padre Alessandro, que a recebem em casa, sempre que ela se arrisca a viajar até Mogi das Cruzes.

“Ele é o filho que eu não tive. Tenho por ele um verdadeiro amor de mãe. Eu agradeço muito a Deus por tê-lo conhecido e pelo fato de padre Alessandro continuar sendo a mesma pessoa maravilhosa que conheci em Brasília, mesmo depois de ter alcançado tanto sucesso no Brasil inteiro”, afirma “Ciné”.