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A MENINA QUE ESCREVE E SONHA

Aos 12 anos, a suzanense Nicolly Belchior acaba de lançar o terceiro livro

Para incentivar a filha, os pais venderam uma kombi depois que o computador da garota pegou fogo

Eliane José
01/04/2023 às 07:07.
Atualizado em 01/04/2023 às 07:36

PRODUÇÃO - Após a impressão dos dois livros iniciais, Nicolly Belchior lançou a terceira obra, “Esteja Comigo”, um e-book; e já prepara um quarto romance, que flerta com o suspense (Imagem: Divulgação)

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A MENINA QUE ESCREVE E SONHA

Aos 12 anos, a suzanense Nicolly Belchior acaba de lançar o terceiro livro

Para incentivar a filha, os pais venderam uma kombi depois que o computador da garota pegou fogo

Eliane José
01/04/2023 às 07:07.
Atualizado em 01/04/2023 às 07:36

PRODUÇÃO - Após a impressão dos dois livros iniciais, Nicolly Belchior lançou a terceira obra, “Esteja Comigo”, um e-book; e já prepara um quarto romance, que flerta com o suspense (Imagem: Divulgação)

Desempregados, mãe e o pai da jovem escritora suzanense Nicolly Belchior decidiram vender uma Kombi depois que o computador da filha pegou fogo - literalmente “soltou fumaça e tudo mais”, como recorda-se o faz-tudo Adriano Belchior que vive de bicos na construção civil há três anos. A mãe, Juliana, segue sem emprego fixo há 5 anos. Comprado um notebook, a estudante de 12 anos seguiu com a escrita que chegou, nesta semana à publicação da terceira obra, Esteja Comigo, à venda no site da Amazon. Durante a pandemia, ela buscou meios e editou de maneira independente O Poder Dentro de Mim,  lançado em 22 de dezembro de 2020, data do aniversário da autora, e  Alba, em 2022.

Em uma entrevista a O Diário por volta das 11h, por meeting, na quinta-feira última, Nicolly estava com sono. O pai falou mais do que a filha. Na rotina da adolescente estão a leitura, a escrita, as redes sociais, um curso recém-iniciado de canto, a escola pública frequentada à tarde, as aulas de inglês dadas na garagem da casa da família a crianças da vizinhança, a espera e o  atendimento de convites para palestrar sobre a produção iniciada ainda na infância, algo incomum em qualquer época no Brasil que luta para ter mais leitores. 

ATUAÇÃO - Em lives, palestras e nas aulas de inglês dadas a alunos da vizinhança, Nicolly Belchior compartilha talentos e busca despertar o interesse pela leitura (Imagem: Divulgação)

Na pandemia houve notado avanço da produção independente de obras assinadas por escritores - que sempre foram a maioria nesse nicho, mas também por mulheres, o que tem sido um destaque cravado pelo mercado editorial. 

O início da carreira de Nicolly  não teve apoio de fora, queixa-se o pai, que conta ter procurado ajuda em setores da Prefeitura de Suzano - a família reside no Jardim São Bernardino.  Ele acredita que a família poderia inspirar mais jovens a ler.

 Com a torcida da professora de português, Luciana Ribeiro de Moura Bellini, a sequência dessa história entusiasma.

Por si, pai, mãe e a filha se lançaram na divulgação dos livros que são romances enlaçados por fantasia, porém, têm o viés cristão como esteio. Tratam de agressão familiar, rejeição, bullying, o racismo, e superação, justiça e amor.

Segundo ela, os personagens surgem do seu repertório de vida e experiências. E destilam  sentidos e sentimentos universais diante do sofrimento, alegria e aprendizado humano.

Um exemplo expõe melhor: a escritora trata sobre o racismo, ofensas e xingamentos que ela não aceita, apesar de já ter sido objeto de tais situações quando era ainda mais nova. “Não é porque eu sou negra que vou aceitar o que disserem”. Sofreu isso quando sonhava ser uma bailarina e os amigos a desencorajaram, dizendo ser impossível tal meta por causa da cor de sua pele. Ela é negra.

A reação foi iniciar aulas de balé interrompidas quando outros interesses apareceram. “Comecei a gostar de escrever, de outras coisas”, explica.

É esse espírito que os personagens dela carregam. A pitada da autoajuda e cristã, influência da família evangélica, completam a obra. 
A garota já coleciona encontros com escritoras de quem é fã e lê.

Ela começou a gostar dos livros antes dos 6 anos, quando começou a ler. “Meu pai comprava os gibis e comecei por eles. Antes, eram vendidos nas bancas, agora, não vejo tanto”, pondera.

Adriano afirma que o trabalho de escrita, produção, capa é dela. Os livros têm o selo   do Clube dos Escritores. “É ela quem faz tudo e tem sonhos. Ela fala que terá, um dia, a escola dela”, encerra um pai orgulhoso, pouco antes  de compartilhar vídeo em que ela ensina inglês aos amigos na “sala-garagem” improvisada.

 Professora virou a madrinha da autora

Professora de português há 20 anos, Luciana Ribeiro de Moura Bellini conheceu muitos alunos talentosos, que escreviam bem as redações, mas, para ela, a facilidade de criar personagens e sustentar histórias para um livro diferencia Nicolly Belchior. “É um talento nato. É autodidata e desde quando ela me mostrou o livro Alba, a incentivo e acompanho”, diz a referência da garota que se tornou a madrinha literária.

Luciana acompanha, nestas duas décadas, uma forte mudança nos alunos que estão perdendo o gosto pela leitura. “São muitas mudanças, em pouco tempo, e a tecnologia nem sempre é usada para a busca de novos conteúdos e aprendizagens dentro da sala de aula”, posiciona. 
Ela comenta que há talentos descobertos em rodas de leitura. Alunos que escrevem poemas, músicas, mas a vocação para construir personagens e entrelaçar situações é um diferencial nas obras de Nicolly, que ela passou a acompanhar, e, inclusive, ler as obras antes da impressão para  revisar “alguns problemas ortográficos”.

Os pais de Nicolly não eram leitores, antes de a filha começar a escrever livros. “Ela e a família estão muito engajadas nesse projeto que começa a alcançar outras pessoas, por meio das palestras e de lives”.

Em uma das lives, professora e a “afilhada” falaram sobre a leitura e as fórmulas existentes para despertar o gosto pelos livros. A professora comenta que o quarto livro está sendo preparado e caminha para ser um suspense.

Em um momento de reabilitação da escola, após a ruptura provocada pela pandemia, a professora afirma que a comunidade escolar deveria ser atenta às expectativas do aluno. “A escola deve ser um território que dialoga com interesses como a criatividade, as artes, o desenho. Esse seria o caminho para trazer o aluno para a sala de aula”.

Para ela, ainda, a educação vive momento difícil diante de temas como a violência e as dificuldades em individualizar o  acolhimento. “Na escola da Nicolly mesmo há alunos que não  conhecem a obra dela”, comenta.

Outra observação da educadora diz respeito ao crescimento do interesse pelos livros durante o isolamento, que funcionou como um entrave na sequência do aprendizado, mas a surpreendeu. “Muitos jovens ficaram entediados em casa, com a tevê, com a internet, e muitos, eu notei, passaram a escrever, compor músicas”.

Na crise sanitária, cresceu o número de escritoras (es) que lançaram o primeiro ou mais livros no Brasil. 

 Para gostar de ler

"Esteja Comigo" está entre um dos livros de contos lançado pela escritora Nicolly (Imagem: Divulgação)

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2020, com dados de 2019, baliza a percepção da professora de português Luciana Bellini, sobre a redução do hábito da leitura. Em 2015, o estudo mostrou que 56% dos brasileiros eram leitores e 44% não liam. Em 2019 reduziram o índice de leitores, para 52% e o de não leitores subiu para 58%.

Houve retração acentuada no número de leitores com mais de 11 anos, o que traduz diretamente a falta de incentivo até mesmo na escola.
Naquele ano, a  única faixa etária que apresentou aumento foi entre 5 a 10 anos de idade: passou de 67% (2015) para 71% (2019). Já as faixas etárias de 14 a 17 anos e de 18 a 24 anos são as que apresentam maior percentual de queda de leitores, de 8 pontos percentuais. 
Já depois da última Bienal de São Paulo, uma pesquisa com participantes do evento, mostrou um aumento do número de leitores entre o público feminino.
Organizações de livros e editores relatam avanço no número de títulos lançados por mais mulheres, e de maneira independente durante a pandemia. E, outra novidade, o incentivo à leitura crescente em redes sociais por meio de lives, podcasts e até pelo Tik-Tok.

Por falar em live, neste sábado (1º), a escritora de Suzano, Nicolly Belchior fará uma para conversar com seu público leitor. 
Nas redes sociais,  ela é encontrada no @autoranickbelk  

  

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