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ENSINO MÉDIO

Enem, a prova para quem tem nervos de aço, terá a primeira parte aplicada neste domingo

Alunos sentem a pressão para o exame que teve redução no numero de inscritos. Em Mogi, 5,6 mil estudantes foram inscritos

AGÊNCIA O GLOBO e O DiárioPublicado em 21/11/2021 às 11:51Atualizado há 9 dias
Portões da UMC vão fechar às 13 horas para a realização da primeira parte da prova do Exame Nacional / Divulgação
Portões da UMC vão fechar às 13 horas para a realização da primeira parte da prova do Exame Nacional / Divulgação

  A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é uma maratona. Até a linha de chegada, consagrada pela conquista da tão sonhada vaga na universidade, há um longo percurso, rodeado por livros, aulas e exercícios. A corrida deste ano, porém, trouxe novos obstáculos para os estudantes, que fazem a prova a partir das 13 horas, em locais, como a Universidade de Mogi das Cruzes.

Na cidade, são 5,6 mil inscritos, menos da metade do total de participantes do ano passado.

A ansiedade e o estresse, tão comuns nessa fase, se intensificaram às vésperas da prova, diante de uma crise sem precedentes no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), deflagrada depois que 37 servidores entregaram seus cargos com denúncias contra a direção do órgão. A maioria deles trabalhava na elaboração e na logística do exame, e há temor de que problemas de última hora não sejam resolvidos com agilidade e eficiência.

Para o estreante em provas do Enem Kauã Gomes Gonzalez, de 18 anos, as últimas quatro semanas de preparação foram desgastantes, não só pelo ritmo da preparação, mas também pela apreensão, agravada pela crise do Inep. Em meio às incertezas, ele mira uma vaga na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ou na Universidade Federal Fluminense (UFF).

— Como o Enem é uma prova que define o futuro de muitos jovens, inclusive o meu, escândalos como esse fazem com que surjam paranoias ao redor da prova sobre os porquês do pedido de demissão coletivo. A incerteza nos faz dar passos para trás — diz o aluno do 3º ano do Colégio AZ, em Ipanema, no Rio.

Andressa Meireles, de 21 anos, moradora de Luziânia (GO), questiona quais impactos a crise pode ter na prova.

— Se os próprios colaboradores do Inep pediram demissão em massa e não concordam com o que acontece ali, então como será essa prova que tem “a cara do governo”? Isso afeta, sim, diretamente os alunos — diz a jovem, fazendo referência à frase dita na semana passada pelo presidente Jair Bolsonaro.

A opinião é compartilhada pela estudante Rayane Targino, 23, que voltou a se dedicar ao Enem há um semestre, depois de cursar um ano de medicina em ensino remoto. Agora, o objetivo é conquistar uma vaga numa instituição não só mais conceituada, mas também perto da família, dos amigos e do namorado, como a Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) e a Universidade de Brasília (UnB).

— A gente nunca sabe como vai ser a prova, e parece que todo ano tem uma coisa diferente. Eu fico com medo, porque não sei se a prova vai ser a mesma, o que foi alterado, se as questões vão mudar muito do ano passado para cá... Não sei se o tema da redação vai ser voltado para o social, como nos outros anos, ou não. Fico apreensiva, com certeza — conta a aluna, em Brasília.

Para a psicóloga do Hospital Universitário de Brasília (HUB), vinculado à UnB, Fabiana Ribeiro, a crise traz desafios ainda maiores aos jovens, que já enfrentavam o ensino remoto e os desgastes emocionais ocasionados pela pandemia.

— Com essa crise (do Inep), o que tenho visto é que gerou muita insegurança, reforçou a ansiedade que já era própria do exame, somada à pandemia e a todas as dificuldades que a educação enfrentou. Para que o jovem consiga ter um bom desempenho, não existe só a questão do preparo relacionado ao estudo. A gente percebe que a questão emocional é tão importante quanto — avalia.

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Débora Duarte, 26, decidiu brigar por uma vaga em medicina, após fazer graduação e mestrado em direito. A jovem voltou a estudar há um ano, em Goiânia. A preparação, no entanto, tem resvalado numa forte insegurança, já que uma das principais formas de estudo para o Enem é a resolução de exames anteriores. Funciona como um treino: o estudante sabe o perfil das questões que deverá encontrar e o tempo necessário para resolvê-la. Ou, pelo menos, era assim.

— Embora você faça provas antigas, você não se sente seguro. Assuntos, temáticas que eram “de carteirinha”, essenciais no Enem, como, por exemplo, ditadura e Era Vargas, foram censuradas e deixam de cair. Você fica com medo de caírem outros assuntos que não foram tão focados no cursinho pré-vestibular.

A redação é um dos pontos que mais preocupam os alunos. O estudante deve problematizar o tema da dissertação e propor soluções para o que foi apresentado. Nos últimos anos, por exemplo, a estigmatização de doenças mentais no Brasil e a democratização do acesso ao cinema foram abordados.

A professora de redação Samarah Souza, do Curso Exatas, relata os reflexos da crise pela ótica do educador. Ela deixou de trabalhar temáticas consideradas sensíveis para o atual governo, como minorias e justiça social, e passou a usar o que pudesse focar em outros assuntos, como doação de órgãos e nomofobia, que é a dependência digital.

— Tentamos tranquilizar os alunos, mas eles ficaram com muito receio em relação à redação. Então, procuramos o que é atual e o que envolve uma problematização que não seja do governo, que não vá criticá-lo — explica.

Num documento de 36 páginas, os servidores do Inep alegam que foram vítimas de assédio moral e de perseguição por parte da cúpula do órgão. Sustentam ainda que houve uso político-ideológico do instituto pelo Ministério da Educação, inclusive com interferências no conteúdo dos exames, em questões relacionadas a temas como a ditadura militar (1964-1985).

Na semana passada, logo após a saída dos servidores, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a prova começava a ter a “cara do governo”. O presidente do Inep, Danilo Depas, nega as acusações de interferência. Já o ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirma que “abriu mão” de ter qualquer acesso ao conteúdo da prova, elaborada por professores contratados pelo instituto.