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Criaticidade

Veja os 7 pecados capitais das cidades criativas

Uma reflexão na busca de uma melhor vivência no nosso coletivo

Josué SuzukiPublicado em 28/07/2021 às 11:05Atualizado em 01/08/2021 às 22:34
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ENTENDA O CANAL CRIATICIDADE

Cidade criativa é cidade que se reinventa, exercitar a economia criativa, valorizar talentos, sugerir, sugerir, sugerir.

Na busca de um modelo ideal, listo abaixo os 7 pecados capitais das cidades criativas. O texto, as ideias propostas, as considerações não são minhas. Trago de uma velha conhecida, especialista no assunto: Ana Carla Fonseca, economista e doutora em Urbanismo, palestrante e consultora pela Garimpo de Soluções, com atuação em mais de 200 cidades, de 32 países.

Confira:

1 – Entender a cidade como um produto (e não um processo)

Já se tornou comum mencionar a imprescindível Jane Jacobs, quando se argumenta que as cidades de destaque, hoje, em nada garantem essa posição, amanhã. Alguém já visitou Idanha-a-Velha, aldeia histórica de Portugal, de grande importância no século I AC e da qual restam mais vestígios de habitações e templos romanos do que seus 63 habitantes? Sua sucedânea e vizinha, Idanha-a-Nova, teve destino próximo, quando sua população minguou de mais de 30 mil habitantes, em 1950, para (bem) menos de 10 mil, na última década. Atenta à importância das singularidades criativas de um território e à busca desenfreada por espaços de bem-estar, a aldeia resolveu se reposicionar, somando ao pecaminoso queijo da Serra da Estrela um grande investimento na articulação da cadeia da música, aliada ao turismo. Fui Conselheira da candidatura de Idanha-a-Nova à Rede de Cidades Criativas da UNESCO e confesso a surpresa que tive com a enorme concentração de músicos, conservatórios e vivacidade musical, naquela vila diminuta. Cidade criativa é cidade que se reinventa. Prova disso é Paris.

2 – Restringir a cidade à economia criativa

Diga a um urbanista que cidade criativa é aquela na qual a economia criativa tem destaque (ponto) e envie junto muito chá de camomila. É claro que a economia criativa se beneficia de um ambiente propício a essa criatividade, com um ambiente de negócios favorável a ela etc. mas a economia é apenas um dos pilares de uma cidade. Basta pensar no incômodo que sentimos quando somos considerados não como pessoas e cidadãos de fato e de direito mas apenas como consumidores ou trabalhadores.

3 – Priorizar o talento de fora

Anos atrás palestrei em um seminário em Detroit, quando a cidade tateava diversos caminhos para se recompor. Nesse rol entravam desde como transformar muitos dos edifícios industriais abandonados em fazendas verticais, convertendo o antigo berço do fordismo em um celeiro de alimentos funcionais, até conceder polpudos incentivos fiscais à construção de imóveis de luxo à beira do Lago Michigan, com direito a marina e adega privada, na ilusão de aliar a qualidade de vida com custo-benefício imbatível e, com isso, atrair trabalhadores criativos de destaque, residentes em outros centros urbanos. Claro que isso era um elemento de um plano mais complexo, mas o fato de considerar raspar o cofre para atrair talentos de fora, em vez de privilegiar os que ainda não haviam emigrado, foi um exemplo clássico de como não raro esquecemos que o protagonista da cidade deve ser o cidadão.

4 – Tomar a parte pelo todo

Basta colocar dois moradores bairristas para defenderem a criatividade de suas cidades e pronto, lá vem um repente de argumentos de por que uma é mais criativa do que a outra. Mas aposto um acarajé que os bairros e propostas “cool” e “trendy” não faltarão, enquanto raras vezes, se alguma, serão mencionadas iniciativas voltadas às áreas menos favorecidas da cidade. Algo que a pandemia talvez resgate em nosso imaginário coletivo, é a compreensão de que fazemos parte de uma comunidade; o resgate da lógica de que a cidade é um sistema enredado e não o arquipélago de realidades no qual muitos de nós passamos a viver. Falar de cidade criativa requer aproximarmos as regiões que, embora em uma mesma cidade, apresentam desafios dos séculos XIX e XXI.

5 – Falar em nome do cidadão

Há vários os canais de participação cidadã, presenciais ou digitais – orçamento participativo, audiências públicas, canais de ouvidoria, aplicativos de zeladoria urbana – mas, entre eles existirem e os cidadãos acreditarem que serão ouvidos, participarem e acompanharem decisões, há não raro uma longa distância. Parafraseando Milton Nascimento, todo urbanista, economista ou gestor público deve ir onde o cidadão está. Quando começamos a desenvolver a marca-território do Vale do Jequitinhonha, percebemos que os instrumentos tradicionais de escuta do cidadão – oficinas, entrevistas etc. – não seriam suficientes para decodificar o universo de quem lá estava. Criamos então caixas com estímulos sinestésicos, para que as pessoas pudessem se expressar por com o apoio de objetos, e sentissem a que ponto sua opinião era fundamental para nós.

6 – Sugerir ações órfãs

Se de boas intenções o inferno está cheio, também o está de planos estratégicos. Uma das razões para isso, não obstante a validade de muitas dessas iniciativas, é por proporem ações, eventualmente indicando a quem caberia e só então alinhar esse intuito com quem de direito. Ao longo de todo o desenvolvimento do Dá Gosto Ser do Ribeira, primeiro plano regional de economia criativa do país, tivemos conversas frequentes não apenas com o Sebrae, nosso contratante e com o CODIVAR – Consórcio Intermunicipal do Vale do Ribeira e do Litoral Sul, nosso parceiro, mas com várias Secretarias de Estado, SESC, SENAC, Instituto Federal, Cetesb e outras instituições, uma vez que o desenvolvimento de um território necessita da participação de todos – sempre e quando eles também entendam que as ações propostas para a coordenação deles são realmente as mais indicadas.

7 – Outros pecados não faltam – de continuidade a articulação de governança, passando por criação de valor percebido e criação de métricas/KPIs.

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