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Criaticidade

Pela linha de trem, um olhar sobre Mogi

Uma análise de quem não é, mas está mogiano

Josué SuzukiPublicado em 20/11/2021 às 01:37Atualizado há 10 dias
Reprodução
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 Piiiii...chec, chec, chec, chec, Piiiiiiiiiiiiiiiii...

Ainda vejo aquele pequeno contando os vagões: quarenta e dois, quarenta e três...um dia achou um com mais de sessenta.

O menino virou homem. E o destino o levou a lugares longe do trem. Ainda mais ele, que cresceu apreciando a beleza daquela máquina puxando vagões que não cansava de contar.

Morava na última rua do bairro. Em frente à casa, ao atravessar a via, um pequeno terreno e um barranco. Lá embaixo, uma estrada de ferro rasgava parte da cidade. Depois da linha de trem, a escola do  Sesi, o clube e a represa, cartão postal de sua terra natal.

Já adulto, o destino o leva para os altos do Tietê. Não é, mas está mogiano. E não precisamos ser videntes para saber a primeira coisa que o chamou a atenção nessas terras. O trem, a linha rasgando a cidade, as lembranças chegam sem pedir licença.

Voltando à infância, lembremos do barranco. Com os vizinhos, o menino improvisara uma escada feita do próprio barro que o levava para próximo dos trilhos, para desespero da mãe. O dia que entregaram uma passarela que dava acesso à parte de baixo, foi uma alegria só.

A rua Nagib Gabriel está lá, a última do bairro, tranquila como sempre. O mato toma conta do pedaço. Não sabemos se ainda existe escada de barro improvisada naquele barranco de uns três metros de altura. Mas a passarela resiste ao tempo.

Quando o menino foi apresentado ao mentecapto de Fernando Sabino, se identificou. Não pelas loucuras, mas com a cena que dá uma reviravolta na história, a aposta entre Viramundo e seus amigos de que conseguiria fazer o trem parar.

O menino se lembrou que sempre quis ver o trem parado em frente da sua casa, mas nunca teve a louca ideia do protagonista da história de Sabino. Teria virado o heroi da vizinhança? Famoso na cidade? Ou teria tido o mesmo fim trágico de Pingolinha, que quis repetir a façanha do amigo.

Fato é que, ao recordar as cenas da infância, agora adulto, na cidade onde começa a escrever uma novo capítulo da sua vida, os olhares são outros. A vontade não é mais de ver o trem parado na frente de casa, mas sim, rasgando a cidade de uma forma que mostra uma evolução urbana. Um transporte cada vez mais a serviço de uma população, estações cada vez melhores e mais bem estruturadas  (a de Suzano é linda), projetos que indiquem um futuro ordenado e, quem sabe, a solução para um problema já identificado por essas bandas: a linha que disputa com os carros o cruzamento de ruas.

Enquanto isso, o adulto torce e usa espaços como este para lançar ideias. Já o menino...bom, esse fica na memória do que viu e ouviu. Afinal, vez ou outra ecoa na memória: Piiiiiiiii...chec, chec, chec, chec, Piiiiiiiiiii!!!!!!!!!