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Criaticidade

Como a igreja pode carimbar sua participação política em benefício da cidade

Em Mogi das Cruzes, há um exemplo de participação saudável; a igreja na política não pode servir de tráfico de influência e subserviência cega

Josué Suzuki
28/03/2022 às 12:12.
Atualizado em 30/03/2022 às 16:06

Deputado Bertaiolli e comerciantes participam de reunião contra o fechamento da cancela na igreja (Divulgação)

As instituições religiosas são pilares importantes na melhora da qualidade de uma cidade, seja por meio de ações sociais, seja por meio de lutas políticas, seja por meio de eventos, mobilizações e tradição.

Exemplo clássico em Mogi das Cruzes é a Festa do Divino, uma das mais belas e antigas manifestações populares do Alto Tietê. Protagonizado pela igreja católica, extrapola as linhas da religiosidade. Integra o calendário cultural da cidade, fomenta a economia, o turismo e exerce um papel social importante junto a entidades assistenciais, além de manter viva a importância histórica da data. Ainda sobre a igreja católica, é possível citar as inúmeras pastorais, que exercem funções sociais importantes nas cidades.

Mas hoje quero detalhar duas situações vividas por uma igreja evangélica em Mogi das Cruzes, por se tratar de dois assuntos atuais e pelo momento em que se discute o papel da igreja na política.

Em meio a tanta polarização e intransigência no meio, vem se questionando o papel que a igreja tem exercido nessa mistura toda. Ações isoladas ou de grupos, falácias de autoridades religiosas, atitudes questionáveis ajudam a temperar este universo de discussões e o que realmente importa, que é o atendimento a população, acaba em segundo plano.

Recentemente li uma frase de um religioso crítico de toda essa situação: “Não precisamos de pastores políticos, mas de bons pastores e bons políticos.” Tal afirmação confronta os recentes acontecimentos de nossa história política recheadas de favorecimentos: o perdão milionário de dívidas e a polêmica do MEC, em que pastores praticavam tráfico de influência sob as bênçãos do ministro e, possivelmente, da presidência da república.

A relação política e igreja é tão antiga quanto a sua discussão. Sob um forte discurso em relação a pautas atuais como aborto, drogas e ideologia de gênero, parte dos cristãos defende a necessidade de estar representada para defender causas que consideram ser em nome da família brasileira. Mas acabam se perdendo e anabolizando discursos a favor do armamento, por exemplo, além de extrapolarem linhas tênues de intransigência religiosa e preconceito. Quem nunca ouviu a frase: “Bandido bom é bandido morto”? Chega a ser incoerente, pois a própria igreja possui um trabalho de capelania para recuperar as pessoas em presídios.

A igreja deve, sim, ter uma participação ativa na sociedade e, inclusive, na política. Mas não é ordenando em quem votar, uma espécie de voto do cabresto com discurso democrático, e nem demonizando a esquerda e santificando a direita. Não sinto que este seja o papel.

Voltemos aos dois exemplos de uma igreja em Mogi das Cruzes. Ouvi do pastor Márcio Marques, da Manancial da Fé, a frase: “Temos que servir a cidade, de alguma forma”. É igreja sendo igreja.

Um exemplo que vem dessa participação política por parte dessa igreja evangélica é a mais recente briga de Mogi das Cruzes contra o Estado. Após o anúncio da CPTM de fechar a passagem de pedestres da rua Dr. Deodato Wertheimer, no centro, a igreja foi uma das primeiras a se manifestar. Apesar do templo religioso ficar bem ao lado da cancela, o pastor diz que o fechamento não afeta a igreja, mas “é nosso papel comprar essa briga com a comunidade.”

Deputado Bertaiolli e comerciantes participam de reunião contra o fechamento da cancela na igreja (Divulgação)

Após a notícia do acordo entre prefeitura e CPTM para fechar a cancela em definitivo no dia 1º de julho, as pressões aumentaram e a igreja virou uma espécie de QG para comerciantes locais e autoridades se reunirem e se mobilizarem. Foi na igreja a última reunião do grupo contra o fechamento, que reuniu inclusive o deputado federal Marco Bertaiolli.

Agora o pastor anuncia que vai receber a primeira família refugiada da Ucrânia no Alto Tietê, conforme reportagem de O Diário. Os integrantes desse grupo deverão chegar à cidade, no dia 5 de abril próximo, um sábado, e deverão ser acolhidos pelos integrantes da igreja, que neste final de semana iniciou uma campanha para recepcionar os visitantes.

“Ao todo, são cerca de 3,5 milhões de refugiados espalhados por toda a Europa e outros continentes. E nosso objetivo em relação à família que virá para Mogi será reinserir seus membros no mercado de trabalho, garantindo tudo que lhes for necessário. Não sabemos o nome, não temos o perfil das pessoas, mas temos certeza que esta família será muito bem acolhida por nós, mogianos, que sempre se mostraram solidários em momentos de dificuldades”, disse o pastor, ao O Diário.

É preciso outros olhares sobre a participação da igreja na política. Vai muito além de lobbys, tráfico de influência ou subserviência cega. Há formas em que esta participação é um ativo para a assistência as comunidades.

A Bíblia diz que é preciso “separar o joio do trigo”. No atual momento do país, isso nunca foi tão necessário.

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