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AÇÃO EM REDE

Rud investe R$ 20 milhões e quer contratar

Empresa criada há mais de 150 anos na Alemanha, tem sua sede da América Latina em Mogi das Cruzes desde 1.978

Carla OlivoPublicado em 08/01/2022 às 06:00Atualizado há 8 dias
Eisner Soares
Eisner Soares

Com produção mensal de 300 a 400 toneladas de produtos de aço, a RUD Correntes Industriais Ltda, multinacional alemã criada há quase 150 anos, que tem sua unidade da América Latina instalada em Mogi das Cruzes desde 1978, centraliza esforços no aumento da produtividade e competitividade. Para isso, investiu recentemente R$ 20 milhões na compra de novos equipamentos com tecnologia de ponta, ampliação de sua estrutura e construção de mais um prédio na área de 33 mil metros quadrados localizada na Vila Bela Flor, no distrito de Braz Cubas.

Atuante em mais de 80 países e com cerca de 500 patentes nacionais e internacionais, a empresa conta com 220 funcionários entre diretos e terceirizados e destaca a importância da qualificação profissional e da postura comportamental dos trabalhadores, hoje uma dificuldade enfrentada na hora da admissão. “Temos vagas técnicas disponíveis, mas consigo contratar ninguém”, desabafa Daniel Knudsen, CEO e diretor executivo da empresa. 

Quando teve início sua trajetória na RUD?

Eu me tornei CEO da RUD na América do Sul há 15 anos, com apenas 30 anos de idade, em um período muito crítico, em que a empresa estava sucateada e extremamente endividada. Mas com muito trabalho conseguimos reverter a situação e acredito que o meu maior mérito foi montar essa equipe vencedora.

Hoje, qual a representatividade da empresa no mundo?

A RUD é uma multinacional alemã com quase 150 anos, presente em mais de 80 países e com fábrica no Brasil desde 1978, estando a sede em Mogi. Somos líderes mundiais em tecnologia de correntes, fabricamos equipamentos industriais e possuímos mais de 500 patentes. Nossos produtos estão presentes em praticamente todos os segmentos da indústria, como na mineração, siderurgia, óleo e gás, infraestrutura, indústria automotiva e aeroespacial, energia, militar, etc.

O que é considerado carro-chefe?

São os equipamentos transportadores. Fabricamos materiais de movimentação e amarração de carga, correntes para proteção e tração de pneus, muito usadas em siderurgia e mineração, tendo como maiores clientes no Brasil a Vale do Rio Doce, Petrobras e Grupo Gerdau. Temos também os sistemas e equipamentos de transporte a granel, que são os elevadores, e as correntes e ganchos para movimentar cargas. 

E os planos da empresa?

Nós queremos contratar, qualificar e dar oportunidades de crescimento, mas as pessoas precisam querer de verdade e se esforçar para isso, caso contrário, não dá certo. E, principalmente, precisam produzir! Estamos desenvolvendo novos equipamentos para processamento de minérios, especificamente para a Vale, e também fabricamos muito para o mercado offshore, de exploração de petróleo, na área de movimentação de cargas, que têm grande rigor na fabricação. No ano passado, investimos em torno de R$ 20 milhões, compramos máquinas modernas e construímos um prédio novo, para aumentar a produtividade. Precisamos cada vez mais adquirir máquinas melhores, mais produtivas e confiáveis e também de gente qualificada para operá-las, senão perdemos espaço para os fabricantes europeus, chineses e japoneses. Atualmente, processamos cerca de 300 a 400 toneladas de aço por mês, transformando-as em produtos.

Na avaliação do senhor, qual a fórmula do sucesso?

Acredito que a chave para o sucesso de qualquer empresa são as pessoas, precisamos de profissionais qualificados e, principalmente, comprometidos. E a contratação de pessoas com esse perfil está sendo nosso maior desafio no momento. Todas as empresas têm problemas em comum e uma das propostas da Agfe é entender o que está acontecendo para poder mudar. Enfim, o que é sucesso? É arrumar um bom emprego, ser uma pessoa decente, fazer carreira, acumular aumento de salário e méritos em uma mesma empresa, ser um pai ou mãe de família que pode sustentar os filhos com dignidade. Mas hoje, está se perdendo a noção da realidade e não se sabe de onde vem a comida.

Quais os critérios para contratação adotados pela RUD?

A qualificação mínima para trabalhar na RUD é o Ensino Médio completo, no entanto, em nosso processo seletivo, aplicamos testes básicos de matemática e português e, infelizmente, constatamos que a maioria dos candidatos tem deficiências gravíssimas na educação mais básica, que os impossibilita de desenvolver o trabalho na indústria. Outro ponto é a questão comportamental. Quem fica pouco tempo no emprego, troca toda hora e passa longos períodos fora do mercado de trabalho não consegue acumular conhecimento e méritos para receber bons salários. Como dizemos: “Tem que vestir a camisa da empresa”. A maior parte da nossa equipe já está há mais de 10 anos conosco. 

Entre as dificuldades para contratação, quais as principais?

Este é um tema que me incomoda muito. É algo sério e precisamos abordar isso bastante na mídia para conseguirmos começar a mudar esta situação, que é a mão de obra, o capital humano. Temos muita dificuldade em contratar. Há vagas técnicas, mas não conseguimos preenchê-las. E a questão não é só a qualificação técnica, da pessoa ter a formação em mecânica ou solda, é o comportamento, a falta de vontade e de interesse. Isso vem piorando ao longo dos últimos 15 anos e agora está em um patamar terrível. Para contratarmos 7 a 8 pessoas, precisamos trabalhar mais de mil currículos. Destes, selecionamos 300 que são chamados para as entrevistas e 100 já não aparecem. Dos 200 que vêm, aplicamos testes e é uma tragédia completa. Hoje, a maioria dos jovens que chega com Ensino Médio completo está em um nível abaixo do fundamental, ou seja, a 5ª série de antigamente. A grande parte é semianalfabeto ou analfabeto funcional. No geral, não sabe se expressar por escrito, não consegue interpretar textos e, na prática, é tão mal qualificada que não consigo treinar e colocar para trabalhar nas máquinas operatrizes, que são complexas e vêm com manual de instrução. Além disso, ficam dois a seis meses em um emprego. Na indústria, isso não é possível porque o treinamento leva de 2 a 3 anos. Perde-se dinheiro com treinamento, investe-se tempo dos outros operadores mais experientes que precisam passar os ensinamentos e, quando a pessoa está começando a aprender e a produzir, quer sair e usar o dinheiro da rescisão para abrir um negócio.

Por que isso ocorre?

Hoje, a demissão virou um prêmio, porque a pessoa recebe aviso prévio, Fundo de Garantia, multa sobre o Fundo e seguro-desemprego, então fica um ano sem trabalhar. O próprio governo compete conosco. Tivemos muita dificuldade no ano passado, quando a indústria começou a contratar, em setembro. Precisávamos de mão de obra e muitos não vinham nem fazer a entrevista ou vinham e não tinham interesse em começar de imediato, porque estavam recebendo seguro-desemprego ou auxílio emergencial. Hoje temos 5 vagas técnicas, mas queremos contratar mais na medida que for aparecendo gente boa. Antigamente, o funcionário de fábrica tinha 4ª a 5ª série e às vezes o primeiro grau completo, mas era trabalhador e esforçado. Muitas vezes, vinha da roça, no interior do Estado, mas quando os colocávamos na fábrica, ele voava e nós os incentivávamos pagando estudos, com cursos após o horário, para ele concluir o primeiro e segundo grau. Assim, tínhamos pessoas top, que hoje estão se aposentando. E agora, na hora de repor, chegam com certificado de Ensino Médio, mas no teste descobrimos que não sabem fazer as quatro operações básicas da Matemática. Há empresas que têm 80% de turnover. O nosso é de 3% a 4%, mas na maioria das vezes porque o pessoal se aposenta. Isso porque temos um filtro muito forte na contratação. 

Este problema tem solução?

O primeiro passo é melhorar a educação, acabar com este sistema de aprovação automática e ensinar as pessoas a se esforçarem de novo, como foi na nossa geração. O conceito do Bolsa Família é receber dinheiro sem dar nada em troca, quando na verdade é preciso trabalhar para recebê-lo. A indústria, se não conseguir produzir bem, com preço razoável, perde a competitividade. Este é um problema do Brasil porque a educação na Europa ainda é de alto nível, mas esta geração 'nem nem' está no mundo todo. Aqui, um terço da população de 18 a 29 anos é 'nem nem', não trabalha, não estuda, não está procurando emprego e não quer mudar. A RUD é uma empresa tradicional, que está em sua quinta geração, então é muito comum na fábrica da Alemanha ver pessoas que o pai, o avô e bisavô trabalhou lá a vida inteira, fez carreira, cresceu e chegou a bons salários. 

Por que a mudança neste perfil de trabalhador?

Hoje, as pessoas não entendem que é preciso ficar muitos anos na mesma empresa, então não constroem uma história, não acumulam conhecimento e não amadurecem. Para mi, o funcionário que fica mais de três anos aqui tem grande valor, porque opera bem as máquinas, é produtivo e sabe vender bem nossos produtos. Ele ganha mais, consegue ter um padrão de vida bom, mas o pessoal de hoje é sempre iniciante. Tem pessoas com 30 anos, com apenas um ano de carteira assinada. E este não é um problema do mercado, mas da atitude das próprias pessoas. 

De que forma a RUD incentiva a qualificação de seus profissionais?

Queremos contratar pessoas que façam carreira, se aposentem conosco e depois, os filhos também possam ser contratados por nós. Temos a segunda geração, com funcionários que têm 20 a 30 anos na empresa, e um feedback de 98% das pessoas que afirmam gostar de trabalhar aqui, tanto é que nossa rotatividade é muito baixa. Oferecemos um pacote bom de benefícios, plano de crescimento e pagamos faculdade de grande parte. Praticamente todos os nossos engenheiros foram formados aqui. Também temos programas de estudos de idiomas e o funcionário tem oportunidade de visitar outros países. Tudo isso para as pessoas entenderem que é interessante trabalhar em indústria. Na nossa época, quando se perguntava o que a pessoa queria ser quando crescesse, a resposta era mecânico, torneiro, advogado, médico, mas hoje querem ser digital influencer e youtuber. Muitos se fecharam neste mundo. Isso já começa na escola, porque o aluno passa de ano sem estudar para as provas e sem aprender, com a progressão automática, que ensina os jovens a não se esforçarem. É por isso que eles terminam o Ensino Médio semianalfabetos, mas quando chegam em uma empresa, precisam se esforçar para receber o salário, porque ninguém ganha sem fazer nada. Por isso, o país hoje está com sério problema de produtividade e competitividade e, com isso, vem a inflação.