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CPI da Covid

Wajngarten admite à CPI da Covid que governo ignorou Pfizer

Sessão teve bate-boca e relator da CPI disse mais de uma vez que pediria a prisão de Wajngarten por falso testemunho

Agência EstadoPublicado em 12/05/2021 às 23:07Atualizado há 1 mês
Leopoldo Silva/Agencia Senado
Leopoldo Silva/Agencia Senado

Em uma sessão marcada por bate-boca, xingamentos e até ameaça de prisão, o ex-secretário de Comunicação Social da Presidência Fábio Wajngarten admitiu à CPI da Covid, ontem, que a carta na qual a empresa Pfizer se dispunha a negociar vacinas contra o coronavírus foi enviada ao governo em setembro de 2020 e ficou dois meses sem resposta. No depoimento, que durou mais de oito horas, Wajngarten caiu em contradição, negou ter chamado o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello de "incompetente" e irritou senadores.

O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), disse mais de uma vez que pediria a prisão de Wajngarten por falso testemunho. A posição de Renan provocou contrariedade do presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), até então seu aliado, e os dois acabaram discutindo. "Eu não sou carcereiro de ninguém", reagiu Aziz. O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) entrou na sala e chamou Renan de "vagabundo".

"Imagina a situação: um cidadão honesto ser preso por um vagabundo como Renan Calheiros", afirmou Flávio, filho "01" de Bolsonaro, ao dizer que o relator queria transformar a CPI em palanque eleitoral. "Vagabundo é você, que roubou dinheiro do pessoal do seu gabinete", retrucou Renan. "Vá se f...!", devolveu Flávio, que foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa no processo das "rachadinhas". Mais tarde, nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro escreveu: "Com mais de 10 inquéritos no STF, Renan tem moral para querer prender alguém?"

O presidente da CPI suspendeu o depoimento, aproveitando que os trabalhos precisariam ser interrompidos por causa da sessão do Senado. "O que aconteceu aqui foi quebra de decoro", afirmou o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Quando todos voltaram à sala, Aziz se dirigiu a Wajngarten e lhe passou uma descompostura: "Não pense que o pior na sua vida seria a prisão. O pior é o legado que você construiu com muito trabalho e perdeu hoje aqui na CPI".

Carta

O clima tenso dominou toda a sessão. Além da troca de ofensas entre senadores, Wajngarten foi chamado de "mentiroso" em vários momentos. Um deles foi quando tentou amenizar a entrevista dada à revista Veja, em abril. Nela, o ex-secretário de Comunicação responsabilizou o Ministério da Saúde, à época comandado por Pazuello, pelo atraso das vacinas e contou que o CEO da Pfizer, Albert Bourla, havia encaminhado uma carta não apenas ao gabinete de Bolsonaro como a várias autoridades do governo, em setembro, oferecendo 70 milhões de doses da vacina. Disse ainda que, como ninguém havia se manifestado, levou o caso a Bolsonaro, que o autorizou a negociar com a empresa. "Houve incompetência e ineficiência", disse na entrevista.

À CPI, no entanto, o ex-titular da Secom não quis apontar o dedo para Pazuello e muito menos para Bolsonaro. Mesmo assim, confirmou que a correspondência da Pfizer fora enviada ao governo em 12 de setembro, não tendo resposta até 9 de novembro. Mas diminuiu o número da oferta da empresa. "A proposta da Pfizer, no começo da conversa, falava em irrisórias 500 mil vacinas", disse.

Questionado por Renan sobre quem seria responsável pelo atraso na compra das vacinas da Pfizer e, ainda, sobre a criação de um gabinete paralelo de aconselhamento do presidente, Wajngarten deu voltas e afirmou desconhecer o assunto.

"Vossa Excelência é a prova da existência dessa consultoria. Vossa Excelência é a primeira pessoa que incrimina o presidente da República porque iniciou uma negociação, como secretário de Comunicação, e se dizendo em nome do presidente. É a prova da existência disso", afirmou Renan, numa referência ao gabinete paralelo.

Diante de uma placa que substituiu seu nome na mesa pelo número 425.711, em alusão às mortes da pandemia no Brasil, o senador quis saber do publicitário sua avaliação sobre o impacto de atitudes negacionistas de Bolsonaro. "Pergunte a ele", respondeu Wajngarten. Aziz não escondeu a irritação. "Por favor, não menospreze a nossa inteligência. Ninguém é imbecil aqui. O senhor está mentindo para todos nós", disse.

Renan afirmou que iria requerer a gravação da entrevista à Veja, que, logo depois, publicou em seu site o áudio, no qual o ex-titular da Secom reitera ter havido "incompetência" nas negociações da vacina. "Vou requerer, na forma da legislação processual, a prisão do depoente", anunciou o relator.

Outros senadores, como Fabiano Contarato (Rede-ES), também defenderam a prisão de Wajngarten depois que ele negou ter autorizado a campanha publicitária com o mote #O Brasil não pode parar, assinada pela Secom, contra o isolamento social. A campanha foi veiculada em março do ano passado. Wajngarten lembrou que, à época, havia contraído coronavírus e ficou afastado. "Esse depoente tem de sair daqui preso", gritou Contarato, que é delegado. "O espetáculo da mentira é algo que não vai se repetir e não pode servir de precedente", insistiu Renan.

O Código Penal, em seu artigo 342, classifica o ato de fazer afirmação falsa em investigação como crime punível com reclusão de dois a quatro anos e multa.

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