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PROBLEMA ANTIGO

Tarcísio promete acabar com Cracolândia em SP

Equipe do governador eleito informou que a solução passa por “políticas públicas integradas”, envolvendo “acolhimento, tratamento” e “criação de oportunidades”; falta de detalhes gera apreensão de violência

Agência O Globo
08/11/2022 às 13:05.
Atualizado em 08/11/2022 às 13:23

(Crédito: Mariana Acioli)

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PROBLEMA ANTIGO

Tarcísio promete acabar com Cracolândia em SP

Equipe do governador eleito informou que a solução passa por “políticas públicas integradas”, envolvendo “acolhimento, tratamento” e “criação de oportunidades”; falta de detalhes gera apreensão de violência

Agência O Globo
08/11/2022 às 13:05.
Atualizado em 08/11/2022 às 13:23

(Crédito: Mariana Acioli)

No domingo de eleição, depois do fim da apuração do segundo turno, houve correria e tiros de balas de borracha na Cracolândia no Centro de São Paulo. A operação no fim do dia de ida às urnas foi simbólica para ONGs, assistentes sociais e agentes de saúde: eles receiam uma nova escalada da violência diante do aumento de ações de segurança e da promessa do governador eleito Tarcísio de Freitas (Republicanos) de acabar com a Cracolândia.

A assessoria de imprensa de Tarcísio informou que a solução passa pela adoção de “políticas públicas integradas”, principalmente envolvendo “acolhimento, tratamento” e “criação de oportunidades”.

“A máxima defendida pelo futuro governo de Tarcísio é a de que as pessoas não vão para a rua porque consomem drogas, e sim consomem drogas porque estão na rua. Será elaborada uma política de habitação proativa para retirar as pessoas dessa situação”, informou a assessoria, acrescentando que está previsto o reforço de ações em parceria com a polícia e a Guarda Civil Metropolitana.

A equipe do governador eleito cita também o plano de levar o núcleo administrativo do governo estadual ao Campos Elíseos, para revitalizar a região, atrair trabalhadores e o comércio.

Para alguns movimentos sociais que trabalham com usuários do crack, porém, a consequência seria uma região mais militarizada.

“É uma ideia controversa, que não resolve, só espalha (a Cracolândia)”, diz Talita Gonsales, pesquisadora do Laboratório de Justiça Territorial da Universidade Federal do ABC .

Em 2017, no governo de João Doria, que também havia se comprometido com o fim da Cracolândia, uma megaoperação reabriu ruas fechadas por barracas de vendas de droga e a concentração de usuários diminuiu. Mas a Cracolândia não acabou — ficou dispersa pelas redondezas.

Paisagem mudou na praça

Quem anda hoje pela “Praça do Cachimbo” vê uma paisagem muito diferente da região antes conhecida pelo consumo e comércio de drogas em espaços públicos. A Alameda Cleveland ganhou uma nova camada de asfalto, uma quadra de basquete e uma minipista de skate, projeto que se tornou motivo de orgulho para o prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP). Mas não é preciso caminhar muitos metros para saber que o problema só mudou de endereço. O “fluxo” se espalhou e tem até alguns novos pontos fixos, como no cruzamento da rua Helvétia com a avenida São João, onde a polícia delimitou o espaço onde os usuários devem ficar.

O servidor público Paulo Eduardo Bernardes Augusto, de 56 anos, mora no Centro desde 1995, mas afirma que nunca viu uma situação como a de agora:

“Antes (o fluxo) ficava concentrado ali na região da praça Princesa Isabel. Agora se espalhou. Tem por todo canto”,  disse Augusto, que discorda da forma como o problema é combatido. “É uma questão social. São pessoas que precisam de tratamento, não de tiro da polícia ou mudança da sede do Palácio, que só vai varrer os dependentes químicos e falar que o Centro tá bonito. E a saúde, onde fica?”.

Com a deflagração da Operação Caronte, no ano passado, novas prisões de traficantes foram feitas, e a venda e o consumo de drogas foram coibidos. Mas, novamente, os usuários se dispersaram.

Em paralelo, movimentos sociais e ONGs relatam hostilidade e abusos da Guarda Civil e da polícia. Um dos pontos de polêmica vem da parceria entre governo do estado e prefeitura, em uma nova fase da Caronte, que prevê que os policiais abordem usuários e os enviem a unidades de saúde.

”Vemos policiais pegando de 30 a 40 pessoas de uma vez e levando para a delegacia. Essas pessoas ficam horas esperando, sem ter o que comer. São obrigadas a ficar lá até serem enviadas ao atendimento dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Há usuários que chegam no CAPS algemados. Não há base legal para isso”,  critica a antropóloga Amanda Amparo, doutoranda pela USP que pesquisa a Cracolândia desde 2014.

Segundo o governo paulista, desde o início da Caronte, 555 usuários foram conduzidos à delegacia por uso de drogas e “encaminhados aos órgãos de assistência social e saúde, ou liberados, conforme decisão própria”. O secretário-executivo de Assuntos Estratégicos da prefeitura, Alexis Vargas, diz que a abordagem policial e o encaminhamento a serviços de saúde é parte de uma nova fase da Caronte, que foca em coibir o consumo de drogas nas ruas.

“Essas pessoas não são presas. Elas são conduzidas à delegacia, se segue um rito processual, e, no caso daquelas em que se observa um prejuízo das faculdades mentais, há um encaminhamento às unidades de saúde”, diz Vargas. “A polícia não está substituindo serviços. Ela faz o trabalho dela, de inteligência e segurança, e encaminha os usuários para as unidades de saúde. É natural. Só não foi possível fazer antes porque a concentração em um mesmo lugar era muito grande”.

O Globo conversou reservadamente com profissionais que atuam nos CAPS. Eles relataram que a taxa de aceitação do tratamento costuma ser maior quando o usuário é abordado pela equipe de saúde do que pelos agentes de segurança.

“A massa da população é usuária. Quando se faz uma operação e se colocam as pessoas em condição de crime, a intenção não é combater o tráfico, mas combater essas pessoas. Essa é a grande preocupação. Qual vai ser o limite com o novo governo, que tem prometido mais violência e não apresentou até agora um plano de cuidado e atenção?”,  questiona a antropóloga Amanda Amparo.

Relatos de hostilidade

Ao mesmo tempo, a ação policial mais ostensiva tem gerado relatos de hostilidade a agentes de saúde, assistentes sociais, advogados e defensores públicos que prestam atendimento na delegacia aos detidos na Operação Caronte. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Corregedoria da Polícia Civil apura denúncias de possíveis conflitos entre agentes e usuários de drogas.

“Há trabalhadores da região sendo ameaçados de morte. Assistentes sociais e de saúde com medo de trabalhar. Temos tomado cuidado de não sair uniformizados sozinhos. O receio é que isso se torne mais comum”, conta Maria Angélica Comis, do Centro de Convivência É de Lei, que atua na redução de riscos e danos associados à política de drogas.

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