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ENTREVISTA/ECONOMISTA

Indígenas, negros e mulheres têm mais dificuldades para sair do Bolsa Família

Pesquisa de Paulo Tafner mostra que a maioria dos filhos dos beneficiários do Bolsa Família saíram do programa, mas 2,373 milhões continuaram dependentes entre 2005 e 2019.

Agência O Globo
15/03/2022 às 08:47.
Atualizado em 15/03/2022 às 08:58

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ENTREVISTA/ECONOMISTA

Indígenas, negros e mulheres têm mais dificuldades para sair do Bolsa Família

Pesquisa de Paulo Tafner mostra que a maioria dos filhos dos beneficiários do Bolsa Família saíram do programa, mas 2,373 milhões continuaram dependentes entre 2005 e 2019.

Agência O Globo
15/03/2022 às 08:47.
Atualizado em 15/03/2022 às 08:58

Um estudo coordenado pelo economista Paulo Tafner para o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) mostrou que a imensa maioria dos filhos dos beneficiários do Bolsa Família saíram do programa social do governo, mas 2,373 milhões de beneficiários continuaram dependentes entre 2005 e 2019. O economista alerta que indígenas, negros e mulheres têm mais dificuldade em sair do programa.

Como esse estudo foi realizado?

A partir do cruzamento de dados do Cadastro Único de 2005 e da folha de pagamento do Bolsa Família em 2019. Deixamos 2020 por causa da pandemia da Covid 19. A gente pode constatar que a maioria — 7,451 milhões de um total de 11,628 milhões dos beneficiados — não estava mais lá.

Esse grupo conseguiu a emancipação? 

A gente não pode afirmar que eles deixaram de ser pobres, se tornaram emancipadas em relação ao programa. Na segunda fase do estudo, vamos pegar todo mundo que saiu do Bolsa Família e tentar achar essas pessoas nos vários cadastros disponíveis, como a Relação Anual de Informações Sociais, se o trabalhador conseguiu emprego formal se emancipou, se virou microempreendedor individual e ser formalizou, também. Assim, não podemos afirmar que todos os 7,4 milhões se emanciparam.

O estudo apontou desigualdades de cor e gênero na saída do Bolsa Família?

A diferença de saída no Bolsa Família, por raça ou cor, mostra que os brancos se destacam. Eles estão 20 pontos percentuais acima dos negros. Mas os negros não estão em pior situação. Se você olhar os números indígenas, uma vez que entraram, nunca mais saem.

Há diferença por sexo? 

Os homens saíram mais do Bolsa Família do que as mulheres. São 15 pontos percentuais a mais do que as mulheres, por duas razões: os meninos saem mais cedo da escola para trabalhar, e se arrumar emprego formal, acabou. As meninas, quando se tornam mães, deixam de ser dependentes e passam a ser titulares do programa. Os meninos, quando se tornam pais, não.

O estudo apontou desigualdades regionais? 

No Sudeste, Centro-Oeste e Sul, a saída do Bolsa Família é maior do que no Norte e Nordeste. Significa dizer que estas duas regiões geram menos oportunidade de emprego. Por isso, as pessoas não conseguem deixar o programa e vamos ter gerações ficando no Bolsa Família, o que não é desejável.

Um universo de 2,3 milhões de beneficiários pendurados no programa não é muita gente? 

Esse número é muito expressivo. Esses 2,3 milhões de jovens estão no Bolsa Família de 2005 a 2019. São 14 anos e a família não conseguiu superar a pobreza. É muita gente.

O que pode ser feito para ajudar essas pessoas? 

A gente identificou que o programa é mais efetivo para retirar as famílias da pobreza quando ele é complementado com programas municipais de formação da sua mão de obra.

O Auxílio Brasil não enfrenta essa questão? 

Nem o Bolsa Família e nem o Auxílio Brasil. É necessária uma articulação dos governos federal, estadual e municipal para preparar essa molecada que está no Bolsa Família. Se o pai ou mãe tem ensino médio, o filho sai mais rápido do programa. Quem tem que fazer são os municípios.

Além disso, o que é preciso avançar? 

Precisamos de um programa de seguridade social que integre todos e as várias esferas de governo. Vai ser o grande desafio do próximo do governo, sob a ótica social. Tem que envolver seguro-desemprego, abono salarial, Benefício de Prestação Continuada e até FGTS.

O Auxílio Brasil avança sobre portas de saída? 

Quando se falava que o Bolsa Família não tinha porta de saída, se imaginava que a emancipação da pobreza é um processo rápido. Não é. Muita gente falava que tem que receber quatro anos, três anos, e depois, se melhorou, muito bem. Se não, azar. Não tem isso no Bolsa Família e também não tem no Auxílio Brasil. Nesse sentido, as portas de saída são muito semelhantes. A questão de porta de saída não é relevante quando a gente entende que a pobreza, sendo um fenômeno multidimensional, não é superada apenas com complemento de renda. Se os participantes desse drama que é a pobreza não tiverem um mínimo de capital humano, você pode dar dinheiro, um ano, dez, 20, 30, 50 anos, que não vai sair da pobreza. Os programas não são capazes de fazer a superação da pobreza sozinhos.

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