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SOS MALIBU

Agiotas do DF cobravam juros maiores de mais pobres e intimidavam devedores

Conversas de WhatsApp revelam que mais de 30 pessoas foram ameaçadas de agressão ou de morte caso não pagassem empréstimo.

Agência O GloboPublicado em 18/11/2021 às 11:30Atualizado há 12 dias
Casa do sargento e chefe do grupo Ronie Peter Fernandes da Silva / Divulgação - PCDF
Casa do sargento e chefe do grupo Ronie Peter Fernandes da Silva / Divulgação - PCDF

As investigações da Operação SOS Malibu revelaram que mais de 30 pessoas foram ameaçadas em um esquema de agiotagem e extorsão no Distrito Federal. Os juros dos empréstimos variavam entre 8 e 40%, e dependiam do valor do empréstimo. De acordo com o delegado Fernando Cocito, quem pegava menos dinheiro emprestado, entre dois e 10 mil reais, tendia a pagar ágios mais altos. Em alguns casos, eles chegavam a ser diários.

Segundo o delegado, a Polícia Civil teve acesso às conversas do aplicativo WhatsApp dos suspeitos, onde as ameaças foram identificadas. Até o momento, nenhuma vítima relatou ter sofrido agressões, mas algumas chegaram a ser ameaçadas pessoalmente por membros do grupo chefiado pelo policial Ronie Peter Fernandes da Silva.

— Muitas vezes, era designada a um integrante específico a tarefa de ir até a casa da vítima para intimidá-las — disse Cocito.

Ainda de acordo com o delegado, o grupo trabalhava com perfis diferentes de vítimas, de diversas condições financeiras. Na maioria das vezes, uma pessoa de confiança do tomador de recursos indicava o grupo que lhes ofereceria o dinheiro.

— Como o suspeito de chefiar a equipe é um sargento da Polícia Militar, era comum que muitas vítimas também fizessem parte da PM — relatou o investigador.

Foi o caso de uma mulher que pegou um empréstimo de R$20 mil - uma policial militar da reserva. Ela contou à polícia na tarde desta quarta-feira que a condição para receber o dinheiro seria deixar um veículo de garantia. Ela cedeu um Fiat Palio Weekend, cujo modelo, de acordo com a Tabela Fipe atualizada, vale R$ 42 mil.

— A mulher não conseguiu quitar o valor no primeiro mês, mas pagou R$10 mil. Os outros R$ 10 mil estavam sendo pagos em parcelas mensais, com R$ 1,2 mil de juros. Desde abril ela está sem o carro — revelou o delegado. Ele contou que a mulher passava por uma situação difícil e precisava de dinheiro, mas não deu detalhes.

Havia dois extremos no que diz respeito às vítimas das extorsões: os que pegavam valores altos emprestados e deixavam imóveis ou veículos como garantia, e os que precisavam de pequenas cifras, mas pagavam juros altíssimos.

— Um empresário pegou R$150 mil e pagava apenas os juros do empréstimo em parcelas mensais. O grupo exigiu que o homem lhes transferisse a titularidade do apartamento que ele tinha. Por outro lado, um motoboy precisou de R$ 2 mil para liquidar a prestação do cartão de crédito, e pagou ao esquema mais cinco parcelas de R$ 400 — acrescentou Cocito.

A Polícia Civil prendeu, na terça-feira, sete pessoas suspeitas de participar do esquema. Um dos investigados é um sargento da Polícia Militar, suspeito de chefiar o grupo criminoso. Ronie Peter Fernandes da Silva, de 45 anos, levava uma vida de luxo, ostentando nas redes sociais carros caros e viagens, nacionais e internacionais.

A operação, batizada de SOS Malibu, identificou que o grupo movimentou mais de R$ 8 milhões nos últimos seis meses. A polícia acredita que os investigados emprestavam dinheiro a terceiros com juros superiores aos permitidos por lei, e cobravam altos valores mediante "grave ameaça".

Durante a investigação, os policiais apreenderam quatro veículos de luxo, avaliados em R$ 3 milhões. Segundo a polícia, os automóveis eram adquiridos e registrados em nome de outras pessoas para ocultar o esquema de agiotagem.

A nutricionista Raiane Gonçalves Campelo também foi presa na operação. Ela é apontada como operadora financeira de um grupo de agiotagem. De acordo com as investigações, ela não apenas efetuava saques milionários para o esquema ilícito como também ostentava uma vida luxuosa em suas redes sociais.

Segundo as apurações, Raiane é proprietária de uma loja de suplementos que movimentava quantias bem superiores ao que era declarado. O negócio era usado para lavar dinheiro oriundo dos juros cobrados pelo sargento da PM.

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