SACERDOTE

Bispo dom Pedro Stringhini completa 40 anos de ordenação com celebração na Catedral

ATUAÇÃO Dom Pedro Luiz Stringhini foi um dos 152 bispos que assinaram a carta pública com críticas ao presidente Jair Bolsonaro. (Foto: arquivo)

O bispo dom Pedro Luiz Stringhini, 67 anos, completa no domingo 40 anos de ordenação sacerdotal, mas a comemoração será hoje com a realização de missa às 9 horas, na Catedral de Santana, que receberá outros bispos, padres e familiares. A celebração também será em ação de graças pelos 68 anos de ordenação sacerdotal do bispo emérito, dom Paulo Mascarenhas Roxo, e in memorian ao aniversário de 86 anos de ordenação do primeiro bispo de Mogi, dom Paulo Rolim Loureiro (15 de agosto de 1934).

Durante esses 40 anos de vida religiosa, 20 deles como padre, dom Pedro sempre atuou da Zona Leste da Capital. Como bispo passou por São Paulo e Franca, antes de assumir a Cúria de Mogi há oito anos. Bem relacionado na cidade, transita em todos os ambientes e participa de debates sobre questões sociais, ambientais e vários outros temas da cidade. Ele foi um dos 152 bispos que assinaram a carta pública com críticas ao presidente Jair Bolsonaro. Nesta entrevista a O Diário, ele fala sobre sua trajetória e explica porque aderiu ao manifesto contra a “omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres”, além da “incapacidade” do governo para enfrentar a crise.

O que mudou desde a época em que começou na carreira religiosa?

Comecei na zona leste da Capital, na chamada região 9 da Arquidiocese de São Paulo. Fui seminarista, padre e bispo nessa região. Comecei precisamente no ponto mais periférico de São Mateus. O que mudou de lá para cá foi o modelo de ser igreja, mas muitas coisas continuam existindo como sempre foram. O que marcou o meu ministério nesses 20 anos de padre e mais 20 anos de bispo foi o trabalho com as comunidades eclesiais da periferia, com a população mais carente.

Desde que chegou em Mogi, a igreja expandiu na cidade. Qual a estrutura hoje?

Enquanto Diocese temos 80 paróquias e 370 capelas, 150 padres e 40 diáconos permanentes. O número de capelas continua o mesmo desde que cheguei, mas paróquias eram 47. Temos mais algumas planejadas, passando a pandemia, sobretudo para Itaquaquecetuba e Suzano.

Como avalia hoje a situação da população? A pobreza aumentou?

Da época que comecei até 2014 estava havendo uma melhora na inclusão social. O governo Lula tirou mais de 40 milhões de pessoas da fome e da miséria, mas de 2015 para cá piorou muito e o Brasil está entrando de novo no mapa da pobreza.

O senhor foi um dos 152 bispos que assinou a carta manifesto com críticas ao governo do presidente Bolsonaro. O que o levou a tomar essa posição?

No meu caso, sobretudo, quis assinar em solidariedade aos índios e por questões ambientais. Uma das principais preocupações é com a Amazônia. Tem também as questões sanitárias, econômicas, aumento de desemprego e a saúde. A CNBB já vem se pronunciado sobre a situação social de pobreza, mas para além disso, acho que esse tipo de iniciativa pessoal chama mais a atenção do que as institucionais. Percebi que teve uma grande repercussão positiva e negativa, muitas críticas sobretudo da extrema direita, mas muita adesão de grupos que estão se unindo pela defesa da democracia. Está sendo, inclusive, escrita outra carta de apoio aos bispos, um manifesto de juristas, cantores, artistas e outros.

O que achou da repercussão?

Temos que nos manter vigilantes para não deixar os pobres morrerem de fome, impedir que a Amazônia pegue fogo e nem deixar a democracia ir embora. Um grande número de padres, mais de mil, também manifestaram apoio, o que valorizou mais ainda. Acho que não é mais a carta dos bispos, mas sim, uma grande mobilização nacional em torno dos problemas do Brasil, pobreza, saúde, economia e desempregos.

Uma parte da igreja mais conservadora criticou essa postura. Isso significa um racha na igreja?

Não tem crise nenhuma, porque igreja é sempre igreja. As pessoas como cidadãs têm ideologias e postura política, o que é normal. Algumas se manifestam e tem outras acham que não devem ser envolver, mas se envolvem do outro lado. Quer dizer que apoiar o que retrocede pode, mas o que avança não pode?

Mogi está cuidando bem do meio ambiente?

Reconheço que há um esforço do nosso secretário de Meio Ambiente (Daniel Teixeira), que tem procurado dialogar e empreender ações. A igreja tem feito um trabalho através da Pastoral da Ecologia. Há outras inciativas de entidades que vêm se empenhando, mas acho que poderiam fazer mais. Temos que defender o meio ambiente. A situação é preocupante porque ameaça a humanidade e não temos muito mais tempo. É uma consciência que esse governo não tem. Sinto que em Mogi as forças sociais têm essa noção, mas espero que passemos a ter mais consistência, eficiência e eficácia na defesa ambiental, sobretudo porque nós estamos em uma área privilegiada, com a de Mata Atlântica presente. Esse controle ambiental passa pela questão da habitação e do urbanismo.

Sobre a pandemia, como avalia o trabalho de enfrentamento da crise na cidade?

Percebo um esforço grande de Mogi tanto que nós estamos melhorando de fases, porém a pandemia é assustadora e nos deixa perplexos, sem dúvida nenhuma. Acho que muita coisa poderia ser evitada mais no começo. O problema é que a população nem sempre dá conta do perigo e não segue à risca o distanciamento e medidas sanitárias.

O que o senhor vislumbra para o futuro da Igreja?

Da mesma forma que a sociedade avança, a igreja tem que cumprir a missão, encontrando novos caminhos. Tem que expandir com a evangelização e desafio e chegar às periferias onde as pessoas estão. Por isso, sempre digo que em todo local novo tem que haver a presença humana e estrutural da igreja, é preciso ter a consciência de que a missão não acaba e de que a comunicação e abordagem também são diferentes agora. A era digital e as transmissões das celebrações online mostraram o quanto temos que ser criativos e interativos com as pessoas

Seria padre novamente se pudesse começar de novo?

Acho que sim, porque me preparei para a vida sacerdotal muito a partir da família católica de descendência italiana, que residia no interior, zona rural, tudo para viver este ambiente de criação católica. Foi assim que nasci e cresci. Desde criança pensava em ser padre. Mas não foi tão linear assim, trabalhei em São Paulo e antes de ser padre, fiz missão na Amazônia. Nunca perdi minhas raízes que se formaram na cidade onde nasci, que é Laranjal Paulista, um local que continuo frequentando todos os meses.


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