CIRCUITO

“Atitudes singelas” ajudam a construir uma cidade mais verde, explica o biólogo Pedro Tomasulo

(Foto: Eisner Soares)

Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre, o biólogo mogiano Pedro Tomasulo atua na área de Conservação da Biodiversidade e avalia nesta entrevista a arborização e outros aspectos ambientais do município. Além de destacar quais são os bairros mais arborizados e defender a instalação de jardins verticais, Pedro diz que Mogi dispõe de “uma cartilha de arborização urbana muito boa”, mas que falta atenção e cuidado para com os parques e atrativos naturais. Ele comenta ainda problemas relacionados aos recursos hídricos e aponta “inconsistências conceituais e técnicas” no recém-lançado Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA).

(Foto: Eisner Soares)

Existe uma cartilha e um plano de arborização oficial da Prefeitura para Mogi das Cruzes, além do Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA). Como o senhor enxerga estas medidas?

Por meio de análises de imagens de satélite, a Universidade de Maryland divulgou que em 2019 o mundo perdeu 119 mil quilômetros quadrados de floresta em razão do desmatamento. E infelizmente o Brasil, juntamente com a Indonésia e a República Democrática do Congo, liderou o ranking. Neste cenário, qualquer iniciativa particular ou governamental voltada à arborização deve ser estimulada e celebrada. Igualmente enaltecida deve ser a iniciativa da elaboração de um plano municipal para conservação da Mata Atlântica, como fez Mogi das Cruzes. O documento que apresenta o referido plano é muito relevante ao que se propõe, porém há inconsistências conceituais e técnicas inerentes à complexidade do tema abordado no documento, assim como também é ausente um cronograma de implantação das ações nele contidas, deixando à deriva a perspectiva de execução da proposta.

Está previsto um corredor florestal para preservação da vegetação entre as serras do Itapeti e do Mar. Acha isso viável?

O corredor ecológico proposto entre a Serra do Itapeti e a Serra do Mar é um projeto ambiental bastante arrojado, devendo receber estudo prévio minucioso antes da sua implantação, a qual demandará um longo prazo e muito investimento. Entendo que podemos, por meio da iniciativa do poder público e de suas parcerias, estudar a possibilidade de implantação de um projeto prévio que caminhe na mesma trilha, porém de menor proporção, e que sirva como laboratório de balizamento a curto e médio prazo

Considerando toda a extensão do município, temos aqui a quantidade ideal de verde?

Parece cultural no Brasil a criação de praças, parques e áreas verdes e posteriormente o esquecimento e negligência da gestão e manutenção destes espaços. Noto que em muitas praças de Mogi a população está gradualmente assumindo o cuidado com estes locais, pois sabem que uma área verde bem cuidada valoriza o bairro e, consequentemente, os imóveis. Entre as árvores plantadas nas praças pela população tenho observado que os manacás-da-serra, os ipês amarelos e a cerejeira japonesa, cujas florações são espetaculares e muito atraentes, são as preferidas. No que diz respeito às frutíferas destaco as mangueiras, as pitangueiras e as jabuticabeiras.

Quais são os bairros mais arborizados? E quais espécies se sobressaem em Mogi?

As áreas verdes de maior relevância para o município estão hoje concentradas nos bairros periféricos onde há uma miscigenação da atividade agrícola com os remanescentes de mata. Podemos citar como exemplo os bairros do Cocuera, Biritiba Ussu, Botujuru, Taboão, Quatinga e o distrito de Taiaçupeba.

Falando em espécies, quais são as ideais para plantio em locais públicos? E quais são as recomendadas para apartamentos e quintais pequenos?

A prefeitura possui uma cartilha de arborização urbana muito boa, que indica várias espécies nativas que podem ser utilizadas nas iniciativas de plantio na cidade. Assim, as pessoas que se interessam podem consultá-la previamente e isso é muito importante antes de escolher qualquer espécie de árvore que, no futuro, pode causar problemas devido ao porte elevado que atinge quando adulta.

Há espaço em Mogi para jardins verticais em prédios e outras formas modernas de manutenção do verde?

Sim, certamente! Normalmente, quando as pessoas pensam em jardim vertical imaginam uma estrutura colossal, montada numa parede de um prédio de 20 andares. Mas hoje há modelos bem modernos, compostos em kits planejados que servem a qualquer espaço, de qualquer tamanho e onde se deseje o saudável convívio com o verde. Jardins verticais criam ambientes harmoniosos e de incrível apelo contemplativo, verdadeiros refúgios em meio a estas selvas de pedra que são as cidades.

Por que é preciso cuidar das árvores e plantas?

Já é fato muito conhecido o potencial que as áreas verdes exercem na melhoria da qualidade de vida nos centros urbanos. Não apenas pelo aspecto paisagístico, mas também pela sua função na regulação do clima e na qualidade do ar. Toda a água absorvida pelas raízes das plantas serve para produção dos tecidos vegetais e nas trocas metabólicas da planta. E o excedente não é estocado, mas sim conduzido para as partes superiores do vegetal, onde se encontram as folhas, sendo por meio delas eliminado para o ambiente externo em forma de vapor, aumentando assim a umidade do ar e consequentemente reduzindo a temperatura externa, ou seja, atuando na regulação do microclima num dado ambiente. Além disso, a vegetação pode atuar como barreira de propagação do som, das rajadas de vento e de poluentes.

Temos em solo mogiano vários atrativos naturais, como a Ilha Marabá e o Parque Municipal. Em sua avaliação, poder público e população cuidam destes pontos?

Como disse anteriormente, o país cria áreas de proteção ambiental, porém é deficiente na gestão destes espaços. Quem frequenta os parques públicos na cidade nota que, em muitos aspectos, eles poderiam receber mais atenção, serem mais cuidados, receberem mais investimentos e melhor gerenciamento.

E quanto aos recursos hídricos locais?

De forma geral, é notório que o poder público trata muito mal nossos recursos hídricos. Os córregos e ribeirões que cruzam a cidade são afluentes do rio Tietê e, ao percorrerem os bairros da cidade, recebem em suas águas toda a carga do esgoto “in natura”, condenando à morte o nosso tão glorioso rio. É inconcebível que, em pleno século XXI, isto ainda aconteça!

Como estimular as crianças a plantar e cuidar do meio ambiente, em especial da vegetação nativa?

Com atitudes singelas, mas com grande poder transformador. Acredito que as crianças possuem uma percepção muito especial em relação aos elementos naturais. Têm o olhar mais puro e uma atenção plena aos assuntos que as interessam, e o meio ambiente é, certamente, um deles. Seguramente, a influência dos pais é fundamental e fortalece o desenvolvimento infantil criando vínculos, preferências e admirações aos mais diversos temas cotidianos. Além das vivências em família, é importante a inclusão da educação para o meio ambiente nas atividades escolares e nas associações comunitárias, oferecendo às crianças a oportunidade de cuidar de um vaso de plantas e participar de eventos como dia da árvore e feira de ciências.


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