EDITORIAL

As próximas vítimas

Ao ultrapassar a trágica marca das mil mortes causadas pela circulação do novo coronavírus nos dez municípios do Alto Tietê, 133 dias após o primeiro óbito registrado, em 24 de março passado, um temor de quem está na linha de frente do combate à Covid-19 pode ser sintetizado na seguinte frase: “as pessoas perderam o medo”. E é nesse comportamento que estão pistas sobre o perfil das próximas vítimas dessa doença antes da descoberta da cura ou a vacina segura e eficaz.

Reação humana diante de algo desconhecido, arriscado ou incerto, a convivência com tal risco ou perigo vai aos poucos abrindo campo para o descuido, a inconsequência. O inimigo continua no mesmo lugar, mas alguns limites logo são ultrapassados por causa de fatores como o estresse e o cansaço da batalha, ou negligência e omissão política e civil com o que afeta uma comunidade.

Nos serve como lição o gravíssimo acidente na área portuária de Beirute, a se confirmar as investigações iniciais sobre a existência do nitrato de sulfato que, mal acondicionado, se torna um grande risco. Autoridades, técnicos e responsáveis pelo armazenamento por tais produtos perigosos flertaram durante anos com os riscos de uma tragédia humana. Até que um dia, isso aconteceu.

Na pandemia, algo semelhante acontece. Em nossa seção de Cartas, de ontem, o advogado e leitor assíduo Horácio Xavier Franco Filho foi cirúrgico ao comentar o que a maioria das pessoas vivência. Aos poucos, as regras sanitárias começam a ser negligenciadas nos espaços públicos, no ambiente de trabalho, dentro de casa.

Sem a cura e a imunização em massa contra essa doença, está no abandono dos descuidos pessoais e coletivos – não fiscalizados, não denunciados e não penalizados -, o fio condutor da resposta sobre quem serão as próximas vítimas desta e de outras causas de mortalidade e da banalização da vida. Milhares de mortes por dia, passa a ser aceitável.

Em 133 dias, as primeiras mil vítimas da Covid-19 na região superam o número de vidas perdidas nos acidentes de trânsito em quatro anos e meio, quando esse tipo de violência matou 846 pessoas. Nessa informação, destacada pelo jornalista Fábio Palodette, em reportagem, está uma forma de se interpretar a excepcionalidade dessa crise sanitária. Conter a imprudência e a cultura do excesso da velocidade é resposta já conhecida para preservar vidas. No caso da atual pandemia, ainda não há resposta para esse drama mundial.


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