Arquivo do Núcleo de Arqueologia de universidade poderá ser transferido para o município, em Mogi

Acervo tem mais de 300 caixas que ajudam a contar a história de Mogi. (Foto: Divulgação)
Acervo tem mais de 300 caixas que ajudam a contar a história de Mogi. (Foto: Divulgação)

Estão no interior de 310 caixas, 400 livros, 100 tijolos e 40 telhas, o acervo do Núcleo de Arqueologia do Centro Universitário Braz Cubas, construído a partir dos anos 1990, algum tempo depois após o furto de parte do altar e peças da Capela de Santo Alberto, o pequeno santuário preservado por famílias da região da Serra do Itapeti, em Mogi das Cruzes. O Diário teve acesso à lista dos itens reunidos no patrimônio que poderá ser transferido da Braz Cubas para a Prefeitura de Mogi das Cruzes.

No inventário deste projeto estão os estudos de arqueólogos, historiadores e estudantes universitários de cursos superiores, realizados a partir da parceria firmada pela Universidade de São Paulo (USP), de Mogi das Cruzes (UMC) e da então UBC. Foi a Braz Cubas, no entanto, que acabou assumindo sozinha a manutenção desse legado.

As três instituições se uniram após um acontecimento dramático e até hoje um mistério sem solução na crônica dos muitos furtos de peças sacras das dezenas capelinhas e igrejas do Alto Tietê – o desaparecimento, após a entrada de ladrões na frágil estrutura de segurança da Capela de Santo Aberto, de peças raras e uma parte do altar. Um fato que chamou a atenção da comunidade, e principalmente da universidades e da Diocese de Mogi das Cruzes sobre o patrimônio histórico que havia no interior e nas cercanias do santuário, e a necessidade de melhor conhecê-lo.

A primeira visita com foco na prospecção arqueológica da Capela de Santo Alberto aconteceu em 1986, em resposta à atuação da Associação Movimento Mogiano Ecológico Livre (MEL), antes do furto. A pequena capela e o cemitério, mais antigo do que a construção religiosa, que pode ter sido erguida pelos carmelitas, jesuítas ou moradores do lugar, são preservados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mas, de fato, o zelo e uso são mantidos pela comunidade da Serra do Itapeti.

A igreja é de taipa de pilão. Foi reconstruída por volta de 1940, após o desabamento de uma de suas paredes. E em 1996 foi novamente refeita, seguindo os resultados do que apontaram as pesquisas arqueológicas.

Na prática, na prática, desde o século XVII, ela se manteve ativa por fé e o capricho das antigas famílias que se instalaram na estrada de terra batida usada nas viagens entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, desde o período pré-colonial.

Ali era ponto de parada dos viajantes mesmo alguns anos após as sangrentas batalhas paulistas que dizimaram as colônias indígenas originárias dos sertões paulistas e que circulam entre o planalto e o litoral, passando por este caminho mogiano.

Essa e outras histórias e projeções são encontradas em registros feitos a partir do Núcleo de Arqueologia, em teses que se desmembraram das pesquisas coordenadas pela professora e arqueologista Margarida Davina Andreatta, falecida em 2015.

Pertencente à Paróquia de São Bento do Parateí, a capela se transformou em um dos sítios arqueológicos da região da Serra. Neste local, foram encontrados materiais antigos como pederneiras de selix, fragmentos de cerâmica simples e decoradas, faiança, e lítico polido. São esses materiais e os demais encontrados em outros sítios arquelógicos que poderão ter o futuro revisado.

A Capela de Santo Alberto hoje tem o dimensionamento da construção centenária, apontado após a pesquisa arqueológica. O trabalho definiu ainda a retirada do que restou do altar e o retábulo de Santo Aberto, em uma decisão que encontrou resistências entre pesquisadores e a própria comunidade local. Parte do altar foi incorporado ao acervo da Diocese de Mogi das Cruzes.

É sobre esta história que está em discussão, há algumas semanas, a parceria entre o Centro Universitário Braz Cubas e a Prefeitura. O primeiro se dispõe a ceder ao governo municipal o acervo arqueológico, diante do compromisso formal de preservação e de um projeto que dê continuidade ao que hoje foi feito até o momento (confira a lista dos bens do NAUBC).

Após Santo Alberto, a Braz Cubas propectou outros sítios importantes, e atuou na salvarguarda da memória da cidade.

Pesquisas descobriram raridades em Mogi

Quando tinha 22 anos, o trabalho no Núcleo de Arqueologia da Braz Cubas durante dois anos influenciou a carreira e a vida da professora e historiadora Lívia Bolina. Primeiro por criar ambiente para a descoberta do mundo acadêmico a partir do convívio com professores-doutores do naipe da arqueóloga Margarida Davina Andreata (1922-2015), do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP). Depois por permitir a ela a experiência de conhecer o “lado de dentro” da parte da história de Mogi das Cruzes desvendada, naquela época por um método científico em sítios como o de Santo Alberto e do Taboão, onde foi construída a fábrica da General Motors (GM).

“Antes, a cidade tinha os registros orais e dos livros. Ali, no Núcleo, a história foi contada por método científico real, com medição palmo a palmo do chão, os diários de campo, as visitas aos sítios da Serra do Itapeti. Os diários de campo da professora Margarida eram lindos e poéticos porque continham medições, muitas descrições sobre a vegetação, o clima… Além disso, também reunimos registros físicos, os ‘caquinhos’ de materiais, telhas, cerâmicas indígenas”, relembra Lívia, que depois de iniciar o mestrado em Arqueologia na USP teve a certeza que o caminho pessoal seria a educação, a formação de novas mentes. Hoje, ela dirige a escola Saint Thomas.

Lívia afirma que o Núcleo de Arqueologia foi um marco para a Braz Cubas. “O professor Davi Chermann, o doutor Maurício, investiram muito dinheiro e atenção a esse projeto, que formou muitos estudantes, mesmo quando a faculdade de História tinha poucos alunos. Quando eu fiz o curso, ao final, éramos apenas três alunos”, diz.

Com o passar do tempo, o curso de História foi retirado da grade da instituição. Essa faculdade responde por outros legados, como o Núcleo Integrado em Ciências do Homem, que respondeu pela salvaguarda de uma ampla documentação do século XIX, cedida pelo Fórum de Mogi das Cruzes, e que registra informações, por exemplo, sobre o período da escravidão na cidade.

Futuro

A professora Lívia defende a manutenção do acervo e a continuidade da missão deste núcleo, que é a pesquisa histórica. Uma sugestão dela seria disponibilizar o material de maneira online, para livre consulta dos moradores, pesquisadores.”Há raridades nesse acervo para a cidade”, reforça, destacando outro foco: o estímulo e a validação da ciência, no momento atual.

“Quando a ciência se distancia das pessoas dá força ao surgimento, por exemplo, dos terraplanistas ou dos que, agora mesmo, defenderam o uso de limão e outros elementos para tratar a Covid-19”, contextualiza.

Uso do prédio da USP é uma das possibilidades

Há algumas semanas, a Secretaria Municipal de Cultura e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico (Comphap) e o Centro Universitário Braz Cubas iniciaram uma conversa oficial sobre a possível transferência do acervo do Núcleo de Arqueologia para a guarda da administração muncipal.

São tratativas iniciais, como este jornal mostrou na semana passada. Uma das ideia acalentada por membros do Comphap seria conseguir um dos imóveis da USP em Mogi, hoje com fins outros, para o recebimento do acervo e o desenvolvimento de algum projeto que dê visibilidade a essa parte da história de Mogi das Cruzes.

Os sítios do Núcleo de Arqueologia

NOME

ACERVO

Taiaçupeba-Açú

92 caixas com material arqueológico

Capela Santo Alberto

32 caixas com material arqueológico, 2 amostras de taipa de pilão, 18 telhas coloniais

Lago do Parque

11 caixas com material arqueológico

Santa Rita (I, II e III)

13 caixas com material arqueológico

Pedro Rosa

1 caixa com material arqueológico

São José

1 caixa com material arqueológico

Capela Aparecidinha

21 caixas com material arqueológico

Taboão

50 caixas com material arqueológico

Ribeirão Grande

10 caixas com material arqueológico, 30 tijolos, 10 lajotas

Parateí

2 caixas com material arqueológico

Coleção Didática

11 caixas com material arqueológico

Coleção Eldino Brancante

3 caixas com amostras de louças e porcelanas

Sítio Petybon

1 caixa com Coleção Tipo de louças e azulejos

Aterro Sanitário do Quitaúna

1 caixa com material arqueológico

Mogi 1

2 caixas com tijolos e telhas coloniais

SDGN

2 caixas com tijolos e telhas coloniais

  • Além desses mateirias, ainda há caixas com acervo documental há fotografias, slides, tijolos telhas e livros

* Fonte: Núcleo de Arqueologia do Centro Universitário Braz Cubas


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