EDITORIAL

A violência dentro de casa

Meninas de até 13 anos ou mais, vítimas de violência sexual e doméstica estão na nossa vizinhança. O tema ganhou força no cenário nacional pela exposição do caso de uma criança, residente no Espírito Santo, de 10 anos, que teve uma gravidez interrompida, mas preocupa todos os dias, os responsáveis pela rede de proteção à criança e ao adolescente, como afirmou o juiz Gioia Perini, da Vara da Infância e da Juventude.

Vem dele, em entrevista a este jornal, no domingo último, o alerta: “O isolamento social potencializa casos de abuso infantil, mas dificulta a denúncia, porque antes as crianças e adolescentes passavam o dia fora de casa, em creches e escolas. Agora, estão em casa e mais de 70% dos casos de abuso, estatisticamente, ocorrem dentro das residências”.

A violência infantil é um retrato tenebroso do desprezo de parte da sociedade brasileira à criança e à mulher.

O Estatuto da Criança e do Adolescente garante mecanismos legais de proteção, porém, apenas a lei, não tem conseguido reduzir os índices que mostram que a maior parte das vítimas são meninas menores de 13 anos (53,8%) e com uma diferença pequena, mas existente, entre negras (50,9%) e brancas (48,5%), segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de setembro do ano passado, com dados de 2018.

Em 70% dos casos, a conduta ocorre dentro de casa. Isso eleva as chances da repetição dos estupros e agressões porque há um tácito código de silêncio em nome do que não deveria ser mantido entre quatro paredes.

Esses crimes decorrem, em parte, de um falso código moral, baseado no seguinte: “na minha família isso não acontece”. Nota-se isso também em outro grave tabu, o suicídio.

Aliás, a cidade peca por não divulgar frequentemente os números – não as identidades, claro, das vítimas. Não é publicidade, conscientizar a sociedade sobre esses fatos é política de enfrentamento de qualquer problema social.

Adultos, centrados em si, não reconhecem a dor de uma criança. E o juiz da Vara da Infância nos mostra a complexidade do tema na pandemia: “este é um período que, sem a escola, o professor fica sem conseguir detectar, seja pelo comportamento ou pela fala da criança ou do adolescente, este tipo de problema. Muitas vezes, é ele quem detecta e comunica o conselho. Isso é uma falta neste período, mas nosso atendimento é contínuo e ininterrupto”.

Mesmo na pandemia, denuncie a violência infantil (o número apropriado é o Disque 100).


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