EDITORIAL

A causa dos pequenos

Uma decisão favorável a sete de 70 pessoas de ex-pacientes internados no antigo Leprosário Santo Ângelo – atualmente Centro Especializado em Reabilitação Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, faz vibrar a causa dos quase invisíveis.

E está nesse fato, aliás, o sabor da vitória desfrutada por quem, entre eles, foi afastado da convivência familiar e social pela imposição de uma política pública de saúde. São uns poucos cidadãos lutando contra o estado brasileiro.

Essas pessoas não estão nesse papel porque querem. Foram levadas a essa situação por uma situação imponderável: são filhos de pacientes com hanseníase, já falecidos e internados compulsoriamente pelo estado brasileiro no hospital mogiano, um dos 40 construídos a partir da década de 1920 a partir da instituição da Inspetoria de Profilaxia e Combate à Lepra e Doenças Venéreas.

No Santo Ângelo, em Jundiapeba, algumas famílias viveram em um complexo de casas, que atendia aos internos que tinham certo grau de independência dos cuidados médicos e, mesmo assim, durante décadas não conseguiram deixar limites do hospital.

Uma ação movida pelo governo federal busca desapropriar os imóveis a quem recebeu um direito vitalício por ter a vida direcionada pela condução de uma política de saúde falha, que não deu condições, por exemplo, de inserção em programas sociais eficientes e com resultados concretos para o rompimento dos laços institucionais.

São 70 pessoas que lutam por direitos negligenciados. Uma situação que não mudou até hoje. Na semana passada, o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) e a Sociedade Brasileira de Hanseníase foram ao Ministério Público denunciar a falta de medicamentos para o tratamento da doença que provoca lesões na pele e nos nervos. Com a pandemia, alguns estados não têm o medicamento de controle da patologia.

Avanços concretos para o tratamento aconteceram. Mas, o governo faz pouco caso desses pacientes que pouco opinaram sobre os próprios destinos.

A notícia sobre o sucesso de sete destas famílias dada pelo jornalista Laércio Ribeiro, em nossa edição de domingo passado, nos faz lembrar o que disse o filósofo alemão Antonio Gramsci ( 1891-1937) sobre a construção de uma cidade, um organismo que deve zelar pela a igualdade e o bem-estar social de todos: “Não podem existir apenas homens, estranhos à cidade. Quem vive de verdade não pode não ser cidadão e não tomar partido”.


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