2020, o ano que não existiu

João Anatalino Rodrigues

1968 foi um dos anos mais conturbados do século vinte. A Guerra do Vietnã atingia seu clímax com a entrada dos Estados Unidos no conflito. O envio de milhares de soldados à Ásia, para morrer por uma causa que o povo americano mal sabia do que se tratava provocou revolta entre os americanos. Na mesma esteira, o movimento estudantil de maio, na França, tornou-se símbolo de renovação de uma sociedade, que naquele momento, fazia uma violenta revisão nos seus conceitos. A fonte de tudo isso era uma juventude que se recusava a cultivar valores, que na concepção de seus líderes, havia levado o mundo a duas guerras mundiais e a uma divisão política entre duas concepções de vida – liberalismo e comunismo – que somente dores haviam infringido à humanidade.

Nessa conjuntura veio a luta pela liberação sexual, o repúdio a todas as guerras (expressa no slogan tão caro aos hippies “faça amor, não faça a guerra”), os movimentos pela ampliação dos direitos civis e o surgimento dos diversos movimentos mundiais que até hoje provocam urticária em governos conservadores. No Brasil, as tendências revolucionárias de 1968 também deixaram sua marca nos distúrbios que culminaram na edição do Ato Institucional nº 5, que instituiu, de pleno, a ditadura no país. Essa experiência foi muito bem retratada pelo jornalista Zuenir Ventura em seu livro 1968 – O Ano que não terminou. Para Zuenir, 1968 foi um ano que ficaria como marco de um despertar de consciência que nunca se apagaria do imaginário popular, da mesma forma que 1789, ano da eclosão da Revolução Francesa.

Guardadas as devidas diferenças, 2020 pode ser considerado um ano semelhante ao de 1968. Não por causa de movimentos políticos ou ebulições sociais transformadoras, mas em razão de uma pandemia que nos força a modificar comportamentos e projetar uma nova visão de mundo. Se 1968 foi o ano que não terminou, porque sempre será lembrado, 2020 pode ser considerado o ano que não existiu, porque ninguém vai querer se lembrar dele. Como todas as experiências só têm valor se forem efetivamente vividas, podemos, pelo menos, aproveitar as lições que ele nos trouxe. E a principal delas é o valor que devemos dar ao convívio social e à solidariedade. Como dizia Vandré, em 1968, para não dizer que não falei de flores, quem sabe essas lições poderão ser os lírios que nós vamos colher nesse pântano escuro que estamos atravessando. De resto, é rasgar a folhinha e tentar reconstruir a vida.

João Anatalino Rodrigues é advogado, escritor e preside a Apae de Mogi das Cruzes


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